Um domingo atípico para quebrar minha rotina.Após uma semana de péssima alimentação decidi sair para comer em um restaurante legal. Fui me convencendo desde cedo para não ter perigo de desistir e para isso fui atiçando meus desejos e gula até o ponto de sentir o cheiro da comida sem nem mesmo ter saído de casa.Sai por volta das 13:00 horas e andei 3 quarteirões na avenida da praia. Tenho o habito de sempre freqüentar esse restaurante que para mim tem a melhor Paelha de Santos. Não tinha reservado mesa justamente por duvidar que fosse ter forças para sair de casa, mas a gula falou mais alto que todos os traumas e lá estava eu sentado na sala de espera aguardando a vaga de uma mesa.
Imaginei que logo seria atendido já que estava sozinho e não teriam dificuldade para me arrumar um lugar, mas na verdade as mesas acomodavam no mínimo quatro pessoas e como norma da todo estabelecimento comercial, quem da o maior lucro tem prioridade. Eu já estava na minha segunda caipirinha e nada de conseguir uma mesa. Pensei em protestar de alguma forma, quem sabe subornar um garçom ou talvez buscar um novo restaurante, mas me lembrei do vazio que me aguardava fora daquele local e então resolvi permanecer em espera.
Junto com minha terceira caipirinha veio também o chamado para minha mesa. Segui ligeiramente tonto já que emendava o porre do dia anterior agravado pela ausência de alimentos sólidos. Cheguei até minha mesa e lá me esparramei. Nem precisei ler o menu pois a imagem da Paelha me acompanhava desde o apartamento. Pedi uma pequena já que estava sozinho e também um suco de laranja porque se eu continuasse com a caipirinha perigava eu cair de cabeça dentro do prato.
Não demorou muito e fui abordado pelo gerente da casa. Pediu desculpas pelo incômodo e foi direto ao assunto. Disse que na recepção se encontravam duas senhoras de idade estando uma elas com o braço engessado. Pensei que ele iria me pedir a mesa e já estava levantando quando me perguntou se eu me importava se elas sentassem junto comigo.
Respondi que para mim seria um prazer e em pensamento desejei que nada estragasse meu almoço. Que as duas velhinhas ficassem com sua metade da mesa e me ignorassem aqui desse lado. Nada contra a terceira idade, muito pelo contrario porque eu sempre tive ótima relação com pessoas mais velhas e muito as admiro pela força de vontade e trajetória de vida.
Foi só o tempo delas se acomodarem nas cadeiras que a mais idosa já puxou assunto. Primeiro agradeceu por eu ceder o lugar a elas e depois perguntou o porquê de um moço tão bonito e educado estar almoçando sozinho. A outra senhora a repreendeu por ser intrometida, mas em seguida completou que eu devia estar sofrendo de amor mal resolvido.
Não pude mandar às simpáticas velhotas a merda, mas em pensamento as mandei para um pouco mais longe.
Percebi que o almoço seria no mínimo exótico e resolvi relaxar e dar confiança as duas que me olhavam com o rosto repleto de perguntas.
A mais idosa se chamava Angélica e a outra Mari. Dona Mari tinha o habito de usar os óculos na ponta do nariz e por vários momentos pensei que ela fosse derrubar aqueles enormes óculos de lentes foscas dentro do prato.
Como elas insistiam em falar da minha vida amorosa resolvi assumir minha homossexualidade como tática de defesa e assim que sabe chocar as coitadas que com certeza se calariam diante de tal revelação.
Para minha decepção a neta da Dona Angélica é lésbica e minha revelação só despertou mais interesses das duas desocupadas senhoras.
Tentei ser paciente e manter uma distancia segura. Não queria duas estranhas falando do que faço ou deixo de fazer da minha vida enquanto passavam o antepasto no pão.
Bom, eu tentei.
Quando Dona Angélica revelou que sua neta não morava mais na casa de seu filho porque esse havia cortado relações com a menina, senti uma enorme familiaridade com a situação e bastante emocionado deixe escapar que o mesmo acontecia comigo.
Dona Angélica percebendo minha fragilidade segurou em minha mão e disse que fora Deus que nos juntou naquela mesa. Que desde que a neta saiu de casa elas só conversaram por telefone. Que ela ficava dividida entre o filho e a neta e para não magoar nenhum deles sempre optou por fechar os olhos. Mas que ao ver minha emoção ela percebera o quanto tinha errado na criação do filho e principalmente com a neta que deveria precisar de seu colo assim como eu naquele precisava momento.
As palavras de Dona Angélica me derrubaram com tamanha violência que prossegui relatando com detalhes sobre tudo o que as duas me perguntavam. Toda a falsa muralha que pensei ter erguido durante esses dias de exílio caíram por terra, mas de uma forma pacífica, sem choques ou traumas.
As garfadas de comida se intercalavam com fatos da minha vida. Conversamos sobre meus pais, sobre meu trabalho e também sobre meus relacionamentos. A impressão que eu tinha é que ao expelir tais magoas eu ganhava um espaço dentro do peito. O corpo ficava mais leve e a comida conseguia descer com mais leveza.
Confessei estar em Santos porque fugia de todos e principalmente de mim. Que estava na cidade desde domingo e aquela era a primeira vez que saia do apartamento, para fazer algo alem de comprar vinho e cigarros.
A conversa seguiu tão agradável que ouvi com atenção todos os conselhos que me deram. A doçura das duas senhoras me cativou de tal forma que quando encerramos o nosso interminável almoço eu não consegui me despedir e as convidei para juntos tomarmos um sorvete na sorveteria próxima ao restaurante. Não sei aceitaram o convite pelo sorvete ou por pena desse vosso amigo que devia estar com cara de menino que tenta se agarrar a saia da mãe com medo de ficar sozinho.
Enquanto tomávamos nosso sorvete pude ouvir um pouco mais da vida das duas senhoras que sem saber tinham me dado mais carinho e atenção do que recebi em toda uma semana.
Disse que elas me esperassem ali na sorveteria que eu iria até o apartamento, pegaria meu carro e voltaria para levá-las em casa, mas pediram que eu apenas parasse um taxi e então nos despedimos. Dona Angélica antes de ir embora me deu um beijo na testa e fez o sinal da cruz pedindo que Deus me abençoasse. Disse também que assim que chegasse em casa ligaria para a neta para lhe pedir desculpas pela omissão. E assim entrou no carro e seguiu com o braço estendido para fora me dando tchau.
Caminhei de volta para o apartamento num estado de tamanha alegria que quando cheguei no hall de entrada do prédio decidi não mais entrar e me isolar. Sai novamente e atravessei a avenida em direção a praia. Descalcei os tênis e meias e comecei a caminhar pela areia sentindo a água gelada molhar meus pés.
Pedi perdão a Deus pelo primeiro julgamento que havia feito das duas senhoras e agradeci novamente emocionado pelo presente ganho naquela tarde.
Sei que dificilmente terei notícias daquelas duas, mas faço votos que sejam muito felizes e que, Dona Angélica em especial possa reverter toda a desarmonia em sua família dando uma nova vida a todos.

Querido,fico muito feliz que vc tenha tido um bom domingo.incrível como muita das vezes nos surpreendemos com coisas aparentemnte estranhas que acontecem com agente,quando vc poderia imaginar que almoçar junto com duas velhinhas desconhecidas iria te trazer tamanha paz e alegria não é?! pois então,de duas velhinhas vc ouviu palavras tão doces e de tanto carinho.querido acho q Deus te mandou um recado! Vc é mais especial do que pensa e ate quem naum te conhece percebe isso.não se isole mais,como essas duas velhinhas vc vai encontrar muitas pessoas para fazer seus dias felizes sempre.desculpe se eu pareço um pouco intrometida e quem sabe até otimista demais.um beijo grande!
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