sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Fugindo de mim mesmo

A semana passou sem grandes acontecimentos.

Permaneço em Santos, mas não mais trancado em meu apartamento. Tenho evitado o isolamento e o intenso contato que venho tendo comigo mesmo.

Na terça-feira estive em São Paulo para mais um dia de aula. Aproveitei a oportunidade e resolvi passar em casa para ver como estavam as coisas na agência e principalmente com a Carol e o Dennys, meus primos.

Assim que cheguei em casa a Carol me abraçou dizendo que já era hora do bom filho voltar para casa. Me deu um beijo na ponta do nariz e pediu desculpas por ter que se ausentar, mas que em uma hora estaria de volta. Enquanto esperava o retorno da Carol, fiquei de papo com o Dennys que aproveitou para me por a par dos últimos acontecimentos em nossa família.

Me falou que o tio Pedro já tinha começado o tratamento e que estava sendo difícil porque dessa vez ele estava muito desanimado.

Contou-me que nesse domingo o pai dele faria um churrasco na casa deles e que toda a família estaria presente. Que estão todos se reunindo em torno do tio Pedro.

Disse também que logo após eu ter deixado a casa da minha tia no dia dos pais, ele e seu irmão Fahrid tiveram uma séria discussão por minha causa. Parece que o Dennys disse ao Fahrid que a minha presença o incomodava porque eu representava tudo aquilo que ele tinha desejo de ser, mas não tinha coragem, e que isso não se limitava a opção sexual, mas também sobre ele ser sombra do meu tio, sempre disponível, sempre controlado, sem direito de viver a própria vida.

Entendi que os dois estão sem se falar até hoje.


É interessante essa relação que existe entre irmãos, é um sentimento de amor, de proteção e ao mesmo tempo percebo existir uma enorme rivalidade. Vejo com uma enorme panela de pressão onde se misturam todos os tipos de sentimentos, de segredos, medos e desejos, tudo tão bem lacrado e ao mesmo tempo tão sensível. A tensão é tanta que um gesto, uma palavra pode desencadear uma verdadeira explosão capaz de ferir a todos que estão ao redor.

Bom, não sei se estou certo, como filho único jamais poderei descrever tal sensação.


Não sei se as acusações feitas pelo Dennys são totalmente verídicas, mas não me surpreenderia saber que por trás da pose de macho alfa que o Fahrid insiste em manter, possa existir algo mais.

Soube também que o Dennys vem se comunicando com meu pai. Aparentemente meu pai anda perguntando por mim, diz estar preocupado com minha permanência em Santos e que teme que eu volte a fazer uma besteira.

Tão revelação não chega a me alegrar porque penso que se meu pai estivesse realmente preocupado ou interessando em mim, falaria diretamente comigo e não com o Dennys ou a Carol. Para mim isso é só a velha cortina de fumaça que ele e minha mãe sempre fizeram diante da família, uma falsa preocupação só para manter o protocolo.


Mais tarde segui para meu curso para depois retornar a Santos.

Na quarta-feira aproveitei para passar o dia no Guarujá e ontem retornei a Peruíbe.

Visitei museus, vilas de pescadores, casarões do início do século e igrejas. Cheguei até a assistir uma missa, coisa que não fazia há muitos anos.

E assim tenho passado meus dias. Tenho estado mais tempo na estrada do que em qualquer outro lugar. Tenho evitado o silêncio, a solidão.

Tenho evitado o meu passado e a mim mesmo.


Na minha rádio toca:

120...150...200 Km. Por Hora

Roberto Carlos

As coisas estão passando mais depressa
O ponteiro marca 120
O tempo diminui
As árvores passam como vultos
A vida passa, o tempo passa
Estou a 130
As imagens se confundem
Estou fugindo de mim mesmo
Fugindo do passado, do meu mundo assombrado
De tristeza, de incerteza
Estou a 140
Fugindo de você
Eu vou voando pela vida sem querer chegar
Nada vai mudar meu rumo nem me fazer voltar
Vivo, fugindo, sem destino algum
Sigo caminhos que me levam a lugar nenhum

O ponteiro marca 150
Tudo passa ainda mais depressa
O amor, a felicidade
O vento afasta uma lágrima
Que começa a rolar no meu rosto
Estou a 160
Vou acender os faróis, já é noite
Agora são as luzes que passam por mim
Sinto um vazio imenso
Estou só na escuridão
A 180
Estou fugindo de você

Eu vou sem saber pra onde nem quando vou parar
Não, não deixo marcas no caminho pra não saber voltar
Às vezes sinto que o mundo se esqueceu de mim
Não, não sei por quanto tempo ainda eu vou viver assim

O ponteiro agora marca 190
Por um momento tive a sensação
De ver você a meu lado
O banco está vazio
Estou só a 200 por hora
Vou parar de pensar em você
Pra
prestar atenção na estrada

Vou sem saber pra onde nem quando vou parar
Não, não deixo marcas no caminho pra não saber voltar
Às vezes, às vezes sinto que o mundo se esqueceu de mim
Não, não sei por quanto tempo ainda eu vou viver assim

Eu vou, vou voando pela vida
Sem querer chegar

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Deliciosa Surpresa.

Durante quase 15 dias consegui manter-me isolado em minha fortaleza da solidão. Não foi fácil permanecer lúcido, pois o processo de cicatrização e auto conhecimento me fizeram retornar a áreas de grande sensibilidade e instabilidade emocional.

Por inúmeras vezes pensei em desistir, em abrir mão de tudo.

Pensei também em ir embora, não mais me refugiar em Santos, mas sim cair no mundo, sem destino certo. Brasil, exterior quem sabe. A idéia de uma possível nova vida, um novo recomeço, inúmeras possibilidades, porem ainda com o mesmo passado.

Essa idéia ainda não esta devidamente estudada e por enquanto não passa de um simples pensamento. Tenho o desejo, mas me falta coragem.

Posso não ter um emprego que me cative, sei não poder mais contar com uma família, mas não conseguiria viver longe de algumas pessoas. Pessoas que mesmo involuntariamente afastadas, não me esqueceram, não me negaram seu afeto mesmo quando eu insistia em vagar sozinho pela mais profunda escuridão.

O mais complicado nesse isolamento não foi à clausura, mas sim a necessidade em manter os amigos afastados. Tivemos alguns desentendimentos e ao contrario do Chris que ainda não parou de me chamar de centro do universo, consegui o entendimento e colaboração de todos.

Uma pessoa em especial conseguiu como sempre romper meu silêncio. Foi paciente e teve o entendimento para perceber que em muitos momentos a demora na minha resposta foi porque eu não tinha condições ou entendimento para responder.

Gih, só você para me fazer falar e mais ainda, me convencer a recebê-la para passarmos juntos todo o final de semana, hehe. Você só me enganou na quantidade de pessoas, rs.

Assim como o combinado durante a semana concordei em dar uma pausa nas minhas reflexões e receber minha querida amiga e seu namorado aqui em casa.

Eles chegariam na noite de sexta-feira e ficariam aqui até o domingo.

Dei uma ajeitada no apartamento, corri até o supermercado para poder servir a eles algo além de vinho e cigarros que vinha sendo minha principal dieta nos últimos dias. Comprei também alguns incensos e flores para mascarar o ambiente cinza de minha masmorra. Tomei um longo banho e fui para a sala aguardar a chegada dos dois já com o vinho na geladeira e os aperitivos devidamente preparados. Não aprontei nada para o jantar, pois queria sair e comer em um lugar legal.

Toca o interfone e o porteiro avisa que a Gih estava subindo. Corri para a porta e para minha grata surpresa vejo sair do elevador não só a Gih e o Fe, mas também o Gua e a Fe. Estavam com tantas sacolas de compras na mão que pensei ser uma missão de resgate a vitimas de alguma catástrofe.

Os abracei com tamanha vontade que parecia não os ver a uma eternidade.

O Gua me olhando de canto de olho disse a seguinte frase:

Já que você faltou no ultimo encontro gastronômico e pretendia nos dar o bolo novamente essa semana, nós trouxemos o encontro até você.

Me deu um beijo no rosto e disse que queria saber como andava minha alimentação porque eu estava mais magro. Quem manda ter amigo chef de cozinha, rs.

Fomos todos para a cozinha, uns guardavam os mantimentos, enquanto o Gua e eu arrumávamos a bancada para que ele pudesse fazer aquilo que é sua especialidade, nos levar ao êxtase com sua criatividade gastronômica.

Gih tentou me roubar por alguns minutos, mas seguindo as ordens do Chef, ninguém poderia sair da cozinha, o máximo permitido era sentar na copa e assistir o show. Segundo ele eu já tinha tido muito tempo de ócio, por isso me colocou para lavar e descascar os legumes. Eu tava tão feliz com eles ali na minha cozinha que se me pedissem lavaria não só os legumes, mas a louça, panelas e ainda passaria pano no chão, rs.

Saboreamos um delicioso salmão acompanhado por batatas gratinadas e salada de frutos do mar. De sobremesa a Gih e a Fe tinham preparado uma fantástica torta de limão por ser esse um dos meus doces preferidos.

Estava tudo perfeito, maravilhosa comida, conversa agradável e amigos levemente alcoolizados, hehe.

O Fernando, namorado da Gih foi o primeiro a se recolhe e se despediu dela dizendo te vejo amanhã. Eu perguntei se ele estava pensando em ir embora, mas ele disse que não e que a Gih depois explicaria. Desejou boa noite a todos e foi para o quarto deles.

Continuamos os quatro esparramados pela sala e com a saída do Fernando a conversa se tornou mais picante. O Fernando namora a Gih há pouco tempo e é um rapaz bastante sério. Todos nós o adoramos, mas percebemos que ele não se sente muito a vontade ao nosso lado, ainda mais quando perdemos a compostura, rs.

Não demorou muito e o Gua, indecente como sempre, disse que precisava se recolhe, pois tinha assuntos a tratar com a Fernanda lá no quarto. A Fe ficou tão vermelha que quase o manda se divertir sozinho, rs. E assim ficamos eu e Gih sozinhos na sala.

Perguntei se ela não iria se divertir também com o namorado no quarto deles, mas ela me respondeu que já tinha combinado com ele de que passaria a noite conversando comigo e foi exatamente o que fizemos. Permanecemos ali sentados na varando acompanhando o termino da madrugada e alvorecer do novo dia, interrompendo somente para uma rápida corrida até a padaria para compra de algumas delicias para o desjejum matinal.

Deixar a mesa posta e fomos os dois para o meu quarto, deitamos de mãos dadas e conversamos mais um pouco até que o sono chegou e nos derrotou.

No sábado fomos até Peruíbe para um belo passeio e no domingo à noite aproveitamos para almoçar no mesmo restaurante que encontrei as duas gentis senhoras. E no final da tarde todos voltaram para São Paulo.

Não sei como definir tudo de bom que vivenciei nesses dois dias.

Pude sentir mais uma vez o amor e preocupação de cada um deles.

Sei que meu afastamento também os afeta, os machuca, mas agora eles podem entender que estou bem. Que esse isolamento faz parte do meu processo de cicatrização.

Por muito tempo negligenciei as agressões que vinha sofrendo e o acumulo de tanta magoa somado com o trauma do ultimo dia dos pais, fez surgir em meu peito um rasgo que pensei jamais poder curar.

Hoje eu sei que ainda não estou pronto e ainda não sei quando estarei em condições de retomar minha vida, mas sinto que estou mais forte e que amanhã estarei ainda melhor.


sexta-feira, 21 de agosto de 2009

No Silêncio

O eterno ócio que conquistei vindo para Santos tem me proporcionado vivenciar experiências que dificilmente conseguiria realizar permanecendo em São Paulo.

Sou uma pessoa extremamente comunicativa e tal característica se manifestou durante toda minha vida. Na infância sendo o amigo que organizava a diversão, no colégio o aluno que era sempre o orador, mais tarde na escolha do curso superior onde me formei como publicitário.

Essa necessidade de me expressar se manifestou em outros campos como a fotografia através de minha quase extinta carreira de modelo, nas artes em formas de telas ou mesmo de letrinhas que destino não só a esse blog, mas também em meus contos e crônicas. Enfim, sempre busquei o dialogo, até mesmo quando não pronunciava uma única palavra.

Com esse isolamento venho praticando a arte do silêncio. Tudo bem que não um total silêncio porque minha cabeça mesmo confusa, fervilha de tanta atividade. Mas pela primeira vez passo por um processo tão delicado sem me escorar em alguém.

Não vejo méritos nisso, ou sito o fato para me vangloriar, muito pelo contrario. Sei estar mesmo involuntariamente preocupando as pessoas que me querem bem, que mesmo distantes se fazem presentes através de e-mails, blog e telefonemas (isso quando eu os atendo, hehe)...

Sei que poderei sempre contar com vocês meus amigos que sem obrigação, me adotaram como um irmão, um filho, um amigo. O que vocês tem feito por mim durante esses anos é algo que não tenho palavras para expressar. Deram-me atenção, compreensão, me deram colo e fizeram cafuné. Ouviram meus prantos e de novo e de novo com paciência, com ternura. Compraram brigas que não eram de vocês e me devolveram o que eu pensei estar para sempre perdido, o amor de uma família. Por que é assim que eu os vejo, como minha família.

Gi, você tem sido mais que uma mãe. Sempre ao meu lado a me apoiar, mesmo quando o momento era de critica você esteve ali e as fez de tal forma que me levou sempre ao entendimento que precisava para cada ocasião. Você é minha jóia rra, é meu maior presente.

Gua e Fernanda, vocês são aquilo que eu sempre desejei ter. Um casal unido, feliz, verdadeiro e por de mais amoroso. Lembro da primeira vez que a Gi me carregou para a casa de vocês para o então famoso encontro gastronômico. Vocês foram de tamanha generosidade com aquele garoto que até o momento da refeição ninguém sabia ser vegetariano. De minha parte lembro que para evitar a desfeita eu até me servi de uma porção do seu arroz de carreteiro e só não o provei porque nossa histérica amiga Gi deu um grito falando "não acredito que você vai provar Dri".

Podemos pular a parte do constrangimento e lembrar da atenção que tiveram em me preparar uma massinha que até hoje afirmo que deveria estar muito melhor que o arroz de carreteiro, rs.

Lú, minha cachinhos dourados, como não falar das madrugadas que passamos reclamando da vida lá na galeria dos pães. Não sei se a gente falava de mais ou se comia de mais. Acredito até que a gente procurava os problemas só para ter uma desculpa para voltar lá e devorar todas aquelas delicias. Lembra aquela vez que demos de cara com nossas mães sentadas numa mesa próxima a nossa. Eu já tinha saído de casa e você provocou minha mãe perguntando se ela iria me por para fora da padaria e quem sabe do bairro, rs. Sua mãe te catou pelo braço e acabou ali não só o nosso banquete, mas também o delas, rs.

Lembrei de nós dois ainda crianças fazendo centenas de barquinhos de papel e os colocando dentro da piscina. O Seu Dudu quase nos mata lembra e o pior foi o sindico falando com nossos pais. Você a Carol e o Dennys são as únicas coisas boas que sobraram da minha infância. De uma época onde a nossa única preocupação era a de correr por aquele prédio e levar o Seu Dudu (zelador), a loucura, rs.

Carol e Dennys, de toda uma família, vocês são os únicos que me aceitaram, me apoiaram e me incentivaram a seguir em frente. A não baixar a cabeça para toda a tradição, para todas regras e principalmente para o preconceito. Hoje além de meus primos, são também meus sócios e só tenho que agradecer também por isso porque sei que entre nós sou o menos dedicado, o que tem o menor comprometimento e pra falar a verdade ainda não sei como me toleram nessa sociedade.

Carol você que me apoio e comprou uma enorme briga que não era sua, indo contra o tio Hassan que tentou tomar de volta a casa que a vovó deixou para mim como uma parte da herança a qual todos nós, os netos tivemos direito. Casa essa que fora a sede de nossa família desde que ela e o vovô chegaram ao Brasil e que se dependesse do tio Hassan hoje já estaria no chão para que ele então pudesse derrubar o casarão e construir o edifício que ele tanto desejava. Além disso ainda saiu de casa e veio morar comigo para não me deixar sozinho.

O que posso falar para você?

Como posso de alguma forma te agradecer?

Deborah, você assim como Ale foram as pessoas que mais amei na minha vida. Lembro do nosso primeiro dia de aula e da enorme atração que nos juntou. Do problema com seu namorado que na época chegou até a virar seu noivo, rs. Eu ali desiludido resolvi assumir algo que para mim era novo e difícil de aceitar porque afinal era apaixonado por você, mas em contra partida me sentia diferente por desejar me relacionar com o mesmo sexo.

Me assumi gay, você terminou com seu noivo, deixei de ser gay, assumimos nosso namoro que com duração de pouco mais de dois anos para então terminarmos e retomarmos essa bela amizade. Como eu sempre te falo, a culpa de eu ser bissexual deve ser sua neh, hahahahaha.

Sinto sua falta, mas agradeço por você estar longe, buscando seu aperfeiçoamento e assim não ter conhecimento que esse seu amigo se encontra novamente em crise.

Chris, não quero mais brigar com você.

Sabes que estou muito magoado contigo pela forma que tem se dirigido a mim nos últimos e-mails. Não os responderei e nem mesmo atenderei suas ligações. Não estou sendo egoísta e muito menos tentando ser o centro das atenções como você cruelmente insiste em afirmar.

Desejo encerrar esse assunto porque o tenho como um irmão. Irmão esse que nunca foi gerado do ventre de minha mãe, mas mesmo que o fosse, duvido que me fosse tão caro quanto tu és. Só peço que me de o tempo que lhe pedi, sei que um dia vou romper essas barreiras e ai sim volto para Sampa e para junto de todos vocês.

Obrigado a Laura, Rita, Fernando, Silas, Pablo, Marcelo, Cidinha, Ana, Glauco, Erika, Fran, Pedro, Jonas. Obrigado a todos por fazerem parte de minha vida. É por você e graças a vocês que ainda estou aqui.

Mesmo perdido em tantas recordações do passado, não me deixei soterrar pelas péssimas lembranças. No meio de tanto silêncio, fecho os olhos e visualizo a todos vocês meus queridos amigos.


quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Invasão

Após uma semana de intensa reflexão decidir retornar para São Paulo e também para parte da minha vida. Pensei em fazer isso em doses homeopáticas e retomando sem presa, aquilo que ainda penso valer a pena.

Dentre tantos conflitos que carrego a única certeza que tinha era o desejo de continuidade do meu curso de desenvolvimento mediúnico. Aproveitei a data, terça-feira dia de aula e por volta das 17:00 horas iniciei meu retorno.

Subi a serra do mar com muita calma, até mesmo parando no caminho para evitar chegar muito cedo em São Paulo e depois não ter para onde ir. Digo isso porque decidi evitar a volta para casa.

Moro com minha prima Carol e alem disso temos uma agência de eventos que funciona dentro de nossa casa ontem alem de nós dois trabalham também meu primo Dennys e a Laura uma amiga da família.

Não quero estar junto deles, mesmo sabendo serem eles os meus maiores apoiadores. Já passei por situações semelhantes e sei como seria constrangedor esse reencontro. Pensei em após o curso seguir para um flet e permanecer escondido, mas agora em minha cidade natal.

Fui o primeiro a chegar para o curso e aproveitando desci para nossa sala de aula para preparar o ambiente como fazemos toda semana. Liguei a caixa de som e ajustei o volume da musica ambiente, coloquei a água nos copinhos para serem fluidificados, posicionei as cadeiras e sentei no meu lugar buscando serenar meu coração para o melhor aproveitamento da aula.

Na hora marcada estavam todos já devidamente instalados e nosso dirigente fez então a prece de abertura. Ao termino da mensagem teve inicio o debate sobre o tema abordado na semana anterior, Evolução Espiritual. Nosso professor disse que devido ao curto período de aula, algumas perguntas ficaram em abertas e que para sanar todas as duvidas deveríamos continuar no mesmo tema. Eu como havia faltado na semana anterior, resolvi prestar mais atenção na tentativa de recuperar o que perdi.

Ele começou falando sobre sexualidade no mundo espiritual. Que lá não existe a questão do sexo e sim sexualidade, que os espíritos no decorrer de sua evolução podem nascer hora num corpo masculino e outra num corpo feminino. Que geralmente os espíritos podem optar pela escolha do seu sexo antes da encarnação, mas também existem casos onde o plano espiritual sentencia o individuo a nascer num corpo contrario a sua preferência. Seriam esses casos onde a entidade abusou do sexo oposto.

A explicação seguia normalmente até que uma colega pede um minuto para tirar uma duvida. Perguntou sobre tais casos onde a entidade é obrigada a encarnar num sexo contrario ao que era desejado, se essa entidade não poderia então se revoltar em terra e se tornar homossexual.

Nessa hora voltei toda minha atenção para o professor que começava a esclarecer a duvida dizendo que a homossexualidade poderia se manifestar de inúmeras causas inclusive dessa que ela acabara de perguntar. Que nunca ouve um depoimento preciso sobre essa tema e que o Espiritismo a contrario das demais religiões entendia a homossexualidade como algo já determinado no plano superior e não como um desvio de caráter como afirmam as demais doutrinas religiosas.

Gostei da explicação que acabara de receber e até pensei em fazer uma pergunta, mas temi manifestar grande interesse no tema e despertar a atenção dos demais colegas para mim, já que todos ali desconhecem minha opção sexual.

Nosso professor continuava com suas considerações sobre o tema quando meu amigo levantou a mão e pediu para dar um depoimento sobre algo que ele presenciara.

Disse ter uma amiga “sapatão” e que um dia conversando com a mesma ouviu dela uma revelação sobre seu namoro. Teria dito à moça que sempre que mantinha relações com sua parceira ela se sentia muito mal chegando até a passar mal fisicamente. Que ela amava sua companheira, mas não aceitava a relação das duas e que ele aceitava ainda menos.

Eu não podia acreditar no que acabara de ouvir. Meu melhor amigo no curso dando um depoimento carregado de preconceito. Pensei em rebater aquele pensamento de alguma forma, mas novamente me calei para não levantar suspeitas.

Para minha decepção outros colegas foram manifestando também suas impressões e logo a sala virou um campo de batalha. De um lado os que apoiavam, respeitavam e entendia a homossexualidade e do outro, os que condenavam e não entendiam como sendo algo vindo antes mesmo do individuo nascer.

Mesmo sabendo que não falavam diretamente de mim, fui me sentindo ofendido e bastante decepcionado. Pedi licença para me retirar da sala alegando que estava com dor de cabeça e levantei indo em direção a porta.

Nosso professor parece ter percebido meu desconforto, olhou para o relógio e pediu silêncio. Disse que iríamos começar a aula pratica um pouco mais cedo que o de costume e me pediu para esperar só uns minutos antes de ir embora. Mesmo contrariado resolvi aceitar e voltei para minha cadeira.

Ele fez o sinal e um colega apagou as luzes e todos fecharam os olhos e nos colocamos em posição de relaxamento. Nisso ele toca no meu ombro pedindo que eu fosse me sentar na cadeira que ele havia colocado no centro do circulo.

Assim que me sentei ele pediu para que todos dessem as mãos e se concentrassem em mim. Disse vamos mentalizar o Rodrigo, vamos abraçá-lo mentalmente e nos sintonizar com seus sentimentos. Quem sentir alguma coisa que relate para o restante do grupo.

Senti o sangue gelar e passei a temer o resultado de tal exercício.

A primeira a se manifestar foi Dona Antônia que começou a chorar. Nosso professor foi até ela e perguntou o que ela sentia e ela relatou uma dor enorme. Uma dor não física, mas sim emocional. Nisso o Roberto do outro lado da sala também começou a chorar e logo após a Rita também se punha em prantos.

O professor começou então a direcionar os médiuns para que fossem em busca da causa e não no efeito e então eles começaram a expressar os sentimentos que há anos venho sentindo.

Dona Antonia começou a falar sobre uma grande briga, uma discussão que ocorrera já há alguns anos, mas que nunca fora solucionada. Que isso era uma enorme ferida que me corroia e que eu tinha que tentar superar. O Fábio começou a falar da solidão, que me via sozinho mesmo quando estava cercado por outras pessoas. O grupo de pouco mais de 15 pessoas começou a falar de minha vida e sentimentos com tamanha propriedade que parecia que eu antes de entrar na sala tinha sido submetido a um rigoroso questionário.

Acredito que tenha recebido apoio dos meus mentores e também do plano espiritual, pois não consigo entender como tive forças para suportar toda aquela invasão sem desmoronar diante deles. Sei que o único objetivo desse exercício era o de me ajudar, de tentar diminuir um pouco o peso que venho carregando em meus ombros. Entendo que meu professor por ter mais sensibilidade, percebeu o meu descontrole emocional e pediu ajuda do grupo para juntos colaborarem com meu restabelecimento.

Terminada nossa reunião agradeci aos colegas pelo apoio e sai em disparada para meu carro com medo de algum comentário ou pergunta sobre o que fora revelado. Sem muito pensar peguei novamente a estrada e voltei para Santos me refugiando novamente dentro de minha fortaleza da solidão.

Pretendo permanecer por aqui agora sem data para voltar.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

A vóz da experiência

Um domingo atípico para quebrar minha rotina.Após uma semana de péssima alimentação decidi sair para comer em um restaurante legal. Fui me convencendo desde cedo para não ter perigo de desistir e para isso fui atiçando meus desejos e gula até o ponto de sentir o cheiro da comida sem nem mesmo ter saído de casa.
Sai por volta das 13:00 horas e andei 3 quarteirões na avenida da praia. Tenho o habito de sempre freqüentar esse restaurante que para mim tem a melhor Paelha de Santos. Não tinha reservado mesa justamente por duvidar que fosse ter forças para sair de casa, mas a gula falou mais alto que todos os traumas e lá estava eu sentado na sala de espera aguardando a vaga de uma mesa.
Imaginei que logo seria atendido já que estava sozinho e não teriam dificuldade para me arrumar um lugar, mas na verdade as mesas acomodavam no mínimo quatro pessoas e como norma da todo estabelecimento comercial, quem da o maior lucro tem prioridade. Eu já estava na minha segunda caipirinha e nada de conseguir uma mesa. Pensei em protestar de alguma forma, quem sabe subornar um garçom ou talvez buscar um novo restaurante, mas me lembrei do vazio que me aguardava fora daquele local e então resolvi permanecer em espera.
Junto com minha terceira caipirinha veio também o chamado para minha mesa. Segui ligeiramente tonto já que emendava o porre do dia anterior agravado pela ausência de alimentos sólidos. Cheguei até minha mesa e lá me esparramei. Nem precisei ler o menu pois a imagem da Paelha me acompanhava desde o apartamento. Pedi uma pequena já que estava sozinho e também um suco de laranja porque se eu continuasse com a caipirinha perigava eu cair de cabeça dentro do prato.
Não demorou muito e fui abordado pelo gerente da casa. Pediu desculpas pelo incômodo e foi direto ao assunto. Disse que na recepção se encontravam duas senhoras de idade estando uma elas com o braço engessado. Pensei que ele iria me pedir a mesa e já estava levantando quando me perguntou se eu me importava se elas sentassem junto comigo.
Respondi que para mim seria um prazer e em pensamento desejei que nada estragasse meu almoço. Que as duas velhinhas ficassem com sua metade da mesa e me ignorassem aqui desse lado. Nada contra a terceira idade, muito pelo contrario porque eu sempre tive ótima relação com pessoas mais velhas e muito as admiro pela força de vontade e trajetória de vida.
Foi só o tempo delas se acomodarem nas cadeiras que a mais idosa já puxou assunto. Primeiro agradeceu por eu ceder o lugar a elas e depois perguntou o porquê de um moço tão bonito e educado estar almoçando sozinho. A outra senhora a repreendeu por ser intrometida, mas em seguida completou que eu devia estar sofrendo de amor mal resolvido.
Não pude mandar às simpáticas velhotas a merda, mas em pensamento as mandei para um pouco mais longe.
Percebi que o almoço seria no mínimo exótico e resolvi relaxar e dar confiança as duas que me olhavam com o rosto repleto de perguntas.
A mais idosa se chamava Angélica e a outra Mari. Dona Mari tinha o habito de usar os óculos na ponta do nariz e por vários momentos pensei que ela fosse derrubar aqueles enormes óculos de lentes foscas dentro do prato.
Como elas insistiam em falar da minha vida amorosa resolvi assumir minha homossexualidade como tática de defesa e assim que sabe chocar as coitadas que com certeza se calariam diante de tal revelação.
Para minha decepção a neta da Dona Angélica é lésbica e minha revelação só despertou mais interesses das duas desocupadas senhoras.
Tentei ser paciente e manter uma distancia segura. Não queria duas estranhas falando do que faço ou deixo de fazer da minha vida enquanto passavam o antepasto no pão.
Bom, eu tentei.
Quando Dona Angélica revelou que sua neta não morava mais na casa de seu filho porque esse havia cortado relações com a menina, senti uma enorme familiaridade com a situação e bastante emocionado deixe escapar que o mesmo acontecia comigo.
Dona Angélica percebendo minha fragilidade segurou em minha mão e disse que fora Deus que nos juntou naquela mesa. Que desde que a neta saiu de casa elas só conversaram por telefone. Que ela ficava dividida entre o filho e a neta e para não magoar nenhum deles sempre optou por fechar os olhos. Mas que ao ver minha emoção ela percebera o quanto tinha errado na criação do filho e principalmente com a neta que deveria precisar de seu colo assim como eu naquele precisava momento.
As palavras de Dona Angélica me derrubaram com tamanha violência que prossegui relatando com detalhes sobre tudo o que as duas me perguntavam. Toda a falsa muralha que pensei ter erguido durante esses dias de exílio caíram por terra, mas de uma forma pacífica, sem choques ou traumas.
As garfadas de comida se intercalavam com fatos da minha vida. Conversamos sobre meus pais, sobre meu trabalho e também sobre meus relacionamentos. A impressão que eu tinha é que ao expelir tais magoas eu ganhava um espaço dentro do peito. O corpo ficava mais leve e a comida conseguia descer com mais leveza.
Confessei estar em Santos porque fugia de todos e principalmente de mim. Que estava na cidade desde domingo e aquela era a primeira vez que saia do apartamento, para fazer algo alem de comprar vinho e cigarros.
A conversa seguiu tão agradável que ouvi com atenção todos os conselhos que me deram. A doçura das duas senhoras me cativou de tal forma que quando encerramos o nosso interminável almoço eu não consegui me despedir e as convidei para juntos tomarmos um sorvete na sorveteria próxima ao restaurante. Não sei aceitaram o convite pelo sorvete ou por pena desse vosso amigo que devia estar com cara de menino que tenta se agarrar a saia da mãe com medo de ficar sozinho.
Enquanto tomávamos nosso sorvete pude ouvir um pouco mais da vida das duas senhoras que sem saber tinham me dado mais carinho e atenção do que recebi em toda uma semana.
Disse que elas me esperassem ali na sorveteria que eu iria até o apartamento, pegaria meu carro e voltaria para levá-las em casa, mas pediram que eu apenas parasse um taxi e então nos despedimos. Dona Angélica antes de ir embora me deu um beijo na testa e fez o sinal da cruz pedindo que Deus me abençoasse. Disse também que assim que chegasse em casa ligaria para a neta para lhe pedir desculpas pela omissão. E assim entrou no carro e seguiu com o braço estendido para fora me dando tchau.
Caminhei de volta para o apartamento num estado de tamanha alegria que quando cheguei no hall de entrada do prédio decidi não mais entrar e me isolar. Sai novamente e atravessei a avenida em direção a praia. Descalcei os tênis e meias e comecei a caminhar pela areia sentindo a água gelada molhar meus pés.
Pedi perdão a Deus pelo primeiro julgamento que havia feito das duas senhoras e agradeci novamente emocionado pelo presente ganho naquela tarde.
Sei que dificilmente terei notícias daquelas duas, mas faço votos que sejam muito felizes e que, Dona Angélica em especial possa reverter toda a desarmonia em sua família dando uma nova vida a todos.

sábado, 15 de agosto de 2009

Distração

Nesse sábado, sem mais suportar o silêncio das paredes desse apartamento, decidi buscar contato com o mundo exterior. Pensei em descer e andar pelo calçadão, abordar algum infeliz com uma frase estúpida falando sobre o tempo e quem sabe dar a sorte dele ser tão solitário quanto eu a ponto de perder algumas horas conversando comigo.

Pensei também em dar um volta no shopping, dar um mergulho na praia, sair para almoçar em um restaurante legal, ir ao museu... Pensei em tantos roteiros, mas percebi que nenhum deles me daria aquilo que eu realmente buscava. Atenção.

Desanimado com minha constatação resolvi almoçar o resto da pizza de ontem e me atirei novamente no sofá da varanda com o note no colo pensando no que poderia fazer, com quem poderia falar.

Tenho consciência que meus amigos estão tristes comigo por mantê-los distantes, só que nesse momento não tenho estrutura emocional para conversar com quem sabe da minha vida, de meus problemas. Não suportaria questionamentos, sentimentos de pena e até mesmo as palavras de conforto. De que tudo vai passar, de que sou maior que tudo isso, que não estou sozinho e que sou amado. Vocês estão vendo meus queridos eu sei disso tudo, não precisam se preocupar, eu só preciso de um tempo para me por de pé.

Enquanto comia minha pizza amanhecida, me lembrei de um local onde eu conseguiria atenção. Local esse já tão familiar, pois durante um bom tempo freqüentei chats de bate-papo e sempre conheci pessoas interessantes que acabaram saindo da telinha e hoje fazem parte da minha vida.

Pronto, tinha encontrado a solução para o meu problema de solidão.

Procurei por um chat de nome interessante e me lancei em busca de pessoas que também se encontravam sozinhas e que faziam da internet sua única ferramenta de distração.

Não tive sorte na primeira sala e na segunda nem uma boa tarde como resposta eu consegui. Resolvi mudar de tema, de sala e de tática. Não iria mais cumprimentá-los e esperar por resposta, iria sim me meter no assunto que estivesse em pauta e torcer para não ser tratado como um invasor.

Tive êxito na nova estratégia e em poucos minutos eu já sabia tudo sobre a vida da vizinha da tal “Kakau” que tinha ido para o hospital com suspeita da nova gripe. Eu sei que o assunto não era nada interessante, mas entre ele e o branco das paredes resolvi optar por saber mais a respeito da vida da “Kakau” e também do “Coração Partido” um jovem de 16 anos que se queixava por amar a namorada do seu irmão.

A falta de maturidade das conversas fez com que me aventurasse por outras salas até que encontrei um grupo de pessoas que buscavam conhecer sua cara metade. Era uma dessas salas onde pessoas solitárias buscam encontrar um novo amor.

Eu como não queria me expor e nem tão pouco lembrar dos meu problemas resolvi assumir o perfil de um jovem escritor de 30 anos que estava em busca de material para seu novo romance. Disse que não era um escritor renomado e que na verdade só tinha um livro publicado por uma editora que nem era tão grande. Em pouco tempo esse patinho feio de coração espremido passou a ser o centro das atenções da sala de bate papo.

As pessoas foram se animando e ouvi estórias de amores mal resolvidos, de pessoas desiludidas, de sonhadores em busca de alguém para amar, de sua cara metade e até de um viúvo que buscava sua terceira vitima já que tinha enterrado duas esposas.

As horas se passaram e decidi então tirar minha fantasia. Despedi-me dos colegas solitários deixando a capa e mascara dentro dos limites da web. Desliguei o note e novamente me entreguei a minha depressão.

Desejei ter o poder que só encontramos na web, o de brincar de Deus. Somos capazes de nos reinventar de mudar o que não gostamos e até de nos dar nova vida, nova aparência, sexo, endereço, idade...

É exatamente do que preciso, esquecer quem sou para me tornar um novo alguém.

Desfrutar de uma nova vida, uma nova família, uma nova historia.

Uma vida com um final feliz.


quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Portal para o passado.

Desde a tarde de domingo que sai da casa de minha tia entrando no carro e me lançando em fuga rumo ao apartamento de Santos que venho mantendo um contato diário com o meu passado. Estou tendo tempo para revisitar vários momentos de minha vida e tentar entende-los de outra forma, buscando quem sabe levar um esclarecimento para um fato que na época não tinha a maturidade suficiente para compreensão.

É uma tarefa difícil e dolorosa porque quando você abre as portas que selam o seu passado, perde o controle do que dali pode sair e se vê frente a demônios que durante anos tentou sepultar.

Hoje pela primeira vez liguei meu celular para retirar os recados que os amigos vinham deixando desde domingo. Fui ouvindo com atenção cada palavra deixada por todos vocês e puder sentir mesmo a distancia o carinho e o ombro amigo de cada um.

Um recado em especial me chamou a atenção e assim que terminei de ouvi-lo senti brotar dentro do meu peito o sentimento de esperança que tanto desejei. Era minha mãe me dizendo que precisava falar comigo com urgência. Imaginei que ela estivesse preocupada com o meu sumiço e falta de contato até com a Carol e o Dennys meus primos com quem trabalho e tenho ótima relação de amizade. Sem espera liguei para ela para tranqüilizá-la e dizer que eu mesmo longe estava bem.

Ela atendeu a ligação sem nem se quer me dar um oi e já perguntando se eu estava feliz em ter arruinado o dia dos pais de toda a família. Que era de se esperar, afinal a família nunca pode contar comigo e que comprometi a celebração em homenagem ao meu avô.

Por ser o único ausente e sem dar um depoimento sobre o homem que ele foi e que também não participei da sessão de fotos que organizaram para registrar toda a família ali reunida. Sem abrir a boca simplesmente desliguei o telefone na cara dela interrompendo o seu discurso.

Sou obrigado a admitir que ainda não entendi o motivo de tudo isso. Não sei a quem ela tenta enganar quando fala em família se está cansada de saber que há tempos eu fui colocado para fora e nunca mais fui tolerado por grande parte dos distintos membros dessa tão unida família. Ela e meu pai foram os primeiros a me virar a cara e fechar portas e janelas para que tudo que dissesse respeito a minha pessoa não pudesse chegar até eles. Na época um jovem de 18 anos perdeu toda sua referencia e teve que reaprender a viver sem ter com quem dividir tantos conflitos que surgiam em sua mente.

Como filho, tento de verdade entender as razões de meus pais para terem me virado as costas afinal eles devem ter alguma.

Quando fazia terapia cheguei a imaginar que a rejeição que sofri pelos meus pais vinha do fato de minha mãe não poder engravidar. Tanto meu pai como minha mãe são os caçulas e imagino o quanto tenha sido difícil para eles conviver com o nascimento e crescimento de cada sobrinho enquanto eles se submetiam a tratamentos e mesmo assim não conseguiam engravidar.

Sempre ouvi de meus pais, avós e até mesmo de meus tios que eu era um presente para eles, um pequeno milagre que Deus deu aos meus pais. Cresci cercado de muito amor, e sendo o neto mais novo fui paparicado e mimado por todos. Entendo que de alguma forma todos tinha planos e expectativas sobre aquele menino que ainda criança foi levado a uma agência de modelos e começou a fazer fotografias para anúncios promocionais. Um menino de coração puro que crescia sem maldade sempre respeitando as tradições familiares e se dedicando a carreira de modelo que começava a deslanchar.

Imagino que meus familiares tivessem orgulho da pessoa que eu estava me tornando, que se sentissem envaidecidos em abrir uma revista e ver o rosto de seu sobrinho ali estampado. Que fizessem planos para meu futuro como o de me casar na catedral ortodoxa e manter mais uma tradição de família. Enfim, gostariam que eu fosse tudo menos aquilo que realmente sou.

Tento me colocar no lugar de cada um deles, principalmente no dos meus pais que tanto desejaram ter um filho. Que juntos enfrentaram todos os problemas de saúde de minha mãe que a impossibilitava de manter uma gestação, que tiveram a coragem para seguir com uma gravidez de alto risco, e no final enfrentar um parto difícil, que devido às várias complicações apresentadas durante minha gestação, fizeram a equipe médica perguntar ao meu pai por quem ele optava dentro da sala de cirurgia porque eles estavam perdendo tanto mãe quanto filho.

Quando penso nisso até consigo em partes entender a decepção por aquele único e tão desejado filho ter nascido com desvio de caráter como eles mesmos costumam dizer. Entendo que estou longe de ser aquilo que desejavam, mas o que é difícil entender é o quanto isso era importante para todos eles, mais importante até que a minha felicidade. De minha parte sei que não faço nada para envergonhá-los. Sou sim bissexual, mas não sou promiscuo e muito menos afeminado. Quem desconhece minha opção sexual dificilmente consegue associar que o homem a sua frente é gay porque não dou pinta e nem saiu por ai anunciando. Sou assumido somente para os familiares e amigos mais próximos por isso não consigo entender o porquê terem tanta vergonha da minha pessoa.

Desde que fui convidado a me retirar de casa que posso contar nos dedos às vezes que estive entre eles e mesmo assim tendo que suportar os olhares de nojo e reprovação de grande parte da família.

Fecho os olhos e busco por luz no meio desse caos que tem sido minha vida desde os meus 18 anos até hoje com meus 25. Tento juntar todos os fragmentos para quem sabe um dia visualizar novamente o retrato daquilo já fui.

Sigo enfrentando os demônios que libertei assim que abri as portas que dão acesso ao meu passado.


quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Perdido em Lembranças

Confesso que não está sendo fácil esse isolamento que me impôs, mas sei não ter condições emocionais de estar na presença de conhecidos. Sei não ter estrutura para receber criticas e nem tão pouco conforto por isso aqui permaneço.

Hoje tive a nítida impressão de ter visto o Ale na porta da varanda. Ontem me senti sufocado aqui dentro desse apartamento e resolvi deitar no sofá da varanda. Peguei minha inseparável garrafa de vinho, meu maço de cigarros e um cobertor e fiquei ali deitado olhando para o mar, ouvindo o barulho das ondas.

Me distrai pensando nas pessoas que passavam dentro do seus carros e até mesmo com os pedestres, todas indo para algum lugar, ver ou estar com alguém. Por vários momentos também desejei ter para onde ir.

Meu apartamento fica no terceiro andar e de frente para o mar, isso me permite ouvir com clareza o que falam aqueles que passam pelo pátio de entrada do prédio. Por um longo momento me vi entretido no namoro de dois jovens que estavam sentados no banco do jardim. Não me recordo do conteúdo da conversa e sim do carinho entre eles, a forma como se beijavam, se abraçavam e eu ali poucos metros a cima em silencio só a invejar o belo casal.

Acredito que a soma de vários fatores como a paz que senti naquele local, o barulho do mar, o aconchego do sofá e do cobertor e sem deixar de citar o torpor provocado pelo vinho, acabei por adormecer passando ali toda a noite e só despertando pela claridade do novo dia que insistia em se fazer notar.

Quando despertado pela claridade percebi uma forma estranha bem ao meu lado, assim que virei o rosto percebi se tratar do vulto do Ale ali parado com o rosto muito sério só a me vigiar. Dei um salto no sofá e chamei pelo seu nome, mas a imagem se apagou e eu fiquei a imaginar se ainda dormia e sonhava ou já estava realmente acordado.

Desde seu falecimento que peço ao plano espiritual por uma oportunidade como essa, de estar junto dele mais uma vez. De poder vê-lo e quem saber até ouvi-lo. O desejo é tão forte que sempre disse aceitar que esse encontro se desse até mesmo durante um sonho, porem até hoje nunca pude conquistar tal graça.

Ainda não tive entendimento sobre o que ocorreu de fato. Estou acordado desde então buscando alguma resposta para algo que talvez não tenha explicação.

Tento reavivar minha memória na intenção de quem sabe me lembrar melhor do acidente. Refaço cada km de nossa volta de Tabatinga para São Paulo. Vejo com clareza o carro dele sempre na frente do cortejo de quatro carros. Eu o seguia com bastante proximidade e chegamos a brincar em alguns momentos passando sinas pelo espelho retrovisor. Tudo parece tão nítido e de repente se apaga. Não me lembro da colisão e nem como parei meu carro. Não lembro de vê-lo ser retirado de dentro do carro já sem vida e nem do que veio depois. Só volto a ter lembranças já do seu velório onde fui impedido de entrar e expressar minha dor e poder me despedir devido ao fato de na sua família ninguém alem da irmã saber sobre sua homossexualidade e que era eu seu companheiro.

Fiquei durante todo o tempo no lado esterno do prédio onde acontecia o rito e na única vez que tentei me aproximar, fui impedido por um olhar em fúria de uma irmã que me responsabilizava pelo ocorrido. Desde janeiro desse ano que busco por pedaços de minha memória que foram arrancados com a força da perda da pessoa que durante dois anos pude amar e ser amado.

Essa estranha aparição reavivou dota a dor da saudade que vinha sufocando dentro de meu peito. Busquei momentos especiais que tivemos juntos durante esse tão curto período de tempos que convivemos juntos. Parece que escuto ele me contar da primeira vez que me viu e que segundo ele se sentiu diferente, pois era a primeira vez que se sentia atraído por um homem. Ele sempre ria quando me contava essa história porque alegava que ali se perdeu.

Era uma pequena festa na casa da amiga da Gika que é minha amiga e me levou arrastado porque estava sozinha e queria companhia. Para complicar o Ale estava acompanhado da namorada e eu mesmo nem o notei.

Pouco menos de um mês por intermédio dessas mesmas amigas acabamos nos encontrando num barzinho. Desse encontro eu me lembro porque nos falamos e o achei gatinho, mas o fato de estar com namorada me fez considerá-lo hetero.

Somente tivemos um entendimento no terceiro encontro que ocorreu no Boliche do shopping Center Norte onde ele chegou perto de mim e disse sem muito tato que percebia que eu o olhava e ele queria saber o que eu desejava. Eu que sempre fui muito direto confirmei que o olhava sim, mas que o respeitava por ser hetero e estar com sua namorada. Dito isso aquela cara de sério se desmontou e ele confessou que também me olhava, mas não sabia como me abordar, que passou um bom tempo criando coragem para poder se aproximar. Trocamos telefones e já na mesma noite ele me ligou para saber se eu tinha chegado bem em casa.

Daí para frente às coisas foram acontecendo naturalmente. Ele se separou da namorada e só então saímos dos encontros onde só conversamos para assumir pelo menos para os amigos mais próximos a nossa relação.

Fico feliz de só ter bons momentos para me recordar já que nunca tivemos uma briga. Às vezes até discutíamos por pequenas bobagens, mas nada alem disso. Éramos dois homens independentes, seguros de sua sexualidade com um único compromisso, sermos felizes.

Hoje busquei entender o porquê dessa morte tão prematura. Qual a razão para uma pessoa entrar dessa forma na sua vida e em pouco tempo se mostrar de tamanha importância que você chega a pensar que ela sempre esteve ali ao seu lado desde sua doce infância.

Desejei tanto poder contar com o ombro dele para me socorrer como sempre fez nas vezes que tive que suportar o preconceito e desaforos de minha família. Ele conseguia me entender sem que fosse necessário eu me queixar. Me dava forças para enfrentar a ausência dos meus pais e me ajuda a revidar as ofensas que eu ouvia dos meus primos. Fazia-me entender que a distancia imposta por minha família só me faria bem, pois me afastava de pessoas pequenas e preconceituosas.

Hoje tentei por inúmeras vezes repetir essas palavras para mim mesmo, mas não fui capaz de me convencer.

No momento sigo com minha clausura regada a vinho, cigarros e pão de queijo.

Estão servidos?


domingo, 9 de agosto de 2009

I want to be alone!!!

Tentei, juro que tentei!
Tentei evitar constrangimentos, sentimentos de culpa, desprezo e rejeição.
Tentei me preservar do preconceito velado, de comentários mal intencionados, e principalmente da ignorância.

Decidi que esse ano não passaria o dia dos pais com minha família. Não é segredo que desde que sai de casa perdi não só minha referencia, mas também o amor, companheirismo e tantos outros sentimentos que fazem parte de uma grande família. Família essa que desde a revelação de minha homossexualidade não poupou esforços em dizer o quanto eu era indesejado por todos eles.
Num sentimento de auto preservação, decidi entregar o presente do meu pai em seu apartamento na tarde de sábado, e assim evitar o já tradicional almoço na casa da minha tia cercado por todos os tios, primos e agregados.
Passei toda a manhã de sábado em busca de um novo Arguile com quatro mangueiras para presentear meu pai. Esforcei-me para conseguir aquilo que julguei ser o presente perfeito. Grande, imponente e muito bonito assim como imagino deva ser a relação entre pai e filho.
Segui em direção ao apartamento dos meus pais para entregar o presente e quem sabe convidá-los para jantar comigo. Sei que estava sonhando alto, mas ultimamente essa é a única forma que consigo me aproximar de minha família, em sonhos.
Cheguei à portaria e o Sr. Eduardo, porteiro que trabalha a muitos anos no prédio se levantou e veio me abraçar assim que me viu entrar. Por sorte eu não havia me esquecido dele que sempre foi uma pessoa encantadora e acompanhou parte da minha adolescência e vida adulta. Comprei para o Seu Dudu, (como é chamado por todos no prédio), uma bela carteira de couro marrom e também um novo jogo de dominó já que esse passa-tempo é sua maior paixão. Ele recebeu os presentes com tanta emoção que eu também me emocionei e desejei de todo coração que o mesmo viesse a acontecer com meu pai.
Seu Dudu me informou que meu pai tinha acabado de sair de carro, mas que minha mãe estava em casa e eu poderia subir. Conhecendo minha mãe, preferi pedir ao Seu Dudu que avisasse minha mãe de que eu estava lá na portaria e se poderia subir. Assim que desligou o interfone Seu Dudu me informou que minha mãe estava de saída e pediu para eu retornar mais tarde e que ligasse antes para confirmar se meu pai já estaria em casa. Seu Dudu ficou mais constrangido em me dar a informação do que eu em recebê-la. Tentei fazer cara de que não tinha me importado e pedi para ele me arrumar uma caneta e uma folha de papel.
Sentei-me no sofá da recepção e escrevi um bilhete para meu pai dizendo que o amava muito. Que tinha ciência de não ser o filho que ele sempre desejou, ainda mais por ser seu único filho, mas que sempre senti sua falta, que precisava muito dele em minha vida e expliquei o significado que eu havia dado aquele presente, que para mim simbolizava o que poderia ser nossa relação dali para frente. Terminei pedindo que se possível ele me convidasse um dia para fumar daquele Arguile ao lado dele, que seria muito especial para mim. Dobrei o bilhete e coloquei junto à caixa. Seu Dudu entendendo a importância me arrumou um pedaço de fita adesiva e juntos fixamos aquelas palavras junto ao embrulho. Despedi-me do Seu Dudu novamente com um forte abraço e voltei para casa.
Pensei que as emoções trazidas por essa data já tivessem se acabado, até guardei um fundo de esperança de que meu pai fosse me ligar agradecendo o presente assim que chegasse em casa, mas quem me ligou foi minha tia para me convocar para o almoço na casa dela seguindo então a tradição que e rigorosamente cumprida desde antes de eu nascer.
Tentei me desvencilhar do convite, pois sabia que na verdade ninguém me queria ali, ela me ligava mesmo por obrigação e não porque desejasse realmente minha presença. Aleguei que já tinha entregado o presente do meu pai e tinha assumido compromisso para o domingo. Como já é de costume ela não me deu ouvidos e disse que eu não fosse mal educado e a deixasse explicar os motivos da festa desse ano.
Ela me contou que a doença de meu tio havia voltado e que ele em breve começaria novamente com o tratamento. Que eles estavam muito abalados e precisavam da presença de todos para mostrar ao meu tio que ele tem o apoio de todos nós. Alem disso meu avô completaria esse ano 90 anos de idade e o almoço do domingo seria em homenagem a ele. Que ela e minha mãe tinham feito um filme com fotos e pedaços de alguns vídeos antigos e que toda família deveria estar lá para homenagear a memória do meu avô. Depois de ouvir tudo isso não pude mais negar minha presença.
Mais tarde perguntei para a Carol, minha prima que mora comigo o porquê dela não ter me contado de todo aquilo e ela disse que tava atordoada com a doença do meu tio e acabou esquecendo. Perguntei se iríamos juntos para a casa da mãe dela, mas essa disse que antes iria à casa do namorado para entregar o presente do sogro.
Hoje acordei cedo, na verdade confesso que não dormi direito com receio do que teria pela frente. Um misto de medo com esperança de que alguma coisa boa pudesse sair do anúncio da volta da doença do meu tio. Quem sabe a gravidade da situação amenizasse os ânimos sempre exaltados e o dia terminasse exatamente como minha tia havia planejado.
Procurei chegar um pouco atrasado e assim já os encontrar mais relaxados, entretidos em alguma conversa ou atividade e assim pega-los desarmados. Sei que não seria bem recebido por todos, mas imaginei que poderia ser mais um entre eles.
Fui logo ao encontro de meu pai para lhe dar um abraço e desejar um feliz dia dos pais. Ele estava sentado sozinho na sala e se levantou para me abraçar. O beijei no rosto e perguntei se estava bem. Que ele estava mais bonito, mais magro e ele consentiu com a cabeça. Perguntei o que ele tinha achado do presente, se tinha gostado e ele me respondeu que era um belo presente. Fiquei ali parado olhando para ele, esperando que mencionasse o cartão, que dissesse alguma coisa, mas o silêncio se fez presente e percebi que aquele era o sinal para eu me afastar. Virei em direção oposta e notei surgir à primeira lagrima em meu rosto. A removi antes que alguém pudesse notar e continuei a cumprimentar os demais.
Fui até a cozinha dar oi a minha mãe e também as minhas tias que estavam terminando com o almoço. Pelo aroma e quantidade de panelas pude ver que era mais uma das festas onde quase toda culinária Árabe era servida. Recebi um forte abraço de minha tia e em contra partida um beijo gélido de minha mãe. Comentei que o cheiro estava maravilhoso e que deixaria minha restrição à carne de lado e hoje devoraria um prato daqueles charutos de folhas de uva, mas minhas palavras pouco foram ouvidas e notei que ali também não era meu lugar.
Sai em busca do meu tio, pai da Carol e o dono da casa para lhe cumprimentar e entregar o seu presente. Ouvi o barulho no salão de jogos e imaginei que ele estive jogando sinuca com os demais, mas quando fui passar pela porta fui atropelado pelo meu tio mais velho que ainda teve a ousadia de me mandar olhar para frente. Não perdeu seu precioso tempo comigo e eu na verdade preferi assim já que ele é a pessoa que menos me suporta em toda a família.
Lá estavam meus primos e os cumprimentei um a um. O Dennys, meu primo com quem tenho mais afinidade e que também trabalha comigo estava lá jogando sinuca e perguntei se o Fahrid, seu irmão mais velho passaria o almoço na casa do sogro, mas ele respondeu que a o irmão já estava a caminho. Essa notícia me fez gelar o estomago e passei a me preparar para mais um duelo. Acenei com a cabeça e perguntei por meu tio Pedro, que eu o estava procurando e ainda não tinha encontrado. Dennys me informou que ele estava no jardim abastecendo o bar junto com o Fernando nosso primo.
Segui até o jardim e lá encontrei meu tio. Chamei-o pelo nome e ele virou em minha direção. Me aproximei querendo lhe dar um abraço e ele como sempre estendeu sua mão. Falei que já estava sabendo de tudo e estava ali para mostrar que ele podia contar com meu apoio e que tudo daria certo. Ele agradeceu de forma bem seca e eu emocionado com a situação de meu tio perguntei se poderia lhe dar um abraço. Ele me respondeu que se eu fizesse mesmo questão ele não poderia negar, mas pela expressão no seu rosto mudei de idéia e lhe estendi o braço para entregar o presente que eu havia comprado. Ele o pegou da minha mão e jogou em cima de uma cadeira que estava próxima. Me pediu para dar licença que ele tinha mais o que fazer, que logo todos estariam ali para comer e as bebidas não estavam devidamente geladas.
Sai dali acompanhado por uma nova lagrima que surgia num rosto que não conseguia mais sustentar a mascara de que tudo estava maravilhosamente bem.
Sem saber direito onde ficar, voltei para a cozinha para falar com minha tia e saber mais detalhes da doença do meu tio, mas percebi ser impossível conseguir sua atenção com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo. Voltei para o jardim, peguei uma taça de vinho e fiquei ali sentado esperando alguém me chamar para alguma coisa.
Tal convite não aconteceu e logo todos estavam sentando nas mesas que estavam dispostas pelo jardim. Uma a uma foram sendo ocupadas e eu continuava ali sozinho em minha mesa. O Dennys percebendo a situação veio em meu socorro acompanhado de sua namorada. Agradeci, mas disse que eles não deviam se incomodar, que eu logo partiria e só estava à espera da homenagem preparada para o vovô. Para minha alegria eles resolveram ignorar meu discurso e sentaram juntos ao meu lado.
O almoço começou a ser servido justamente na hora em que o Fahrid chegou com seus filhos. Me mantive bem distante e imaginei que não teria problema, mas na primeira oportunidade fui surpreendido por seu filho que se não me engano tem quatro anos de idade que veio até mim e disse:
Vai embora sua bicha!
Dito isso voltou correndo todo feliz para o colo do Fahrid que o aguardava.
Eu não pude acreditar no tamanho da covardia que tinha acabado de presenciar. O Fahrid usara seu filho que na sua inocência nem sabia o que estava falando, para me atacar dizendo aquilo que ele mesmo não tinha coragem.
O Dennys deu um soco na mesa e disse que iria falar com o irmão, que isso já tinha passado dos limites, mas eu pedi para ele não se levantar, que por pior que fosse a situação o Fahrid estava certo e eu já estava me retirando. Levantei rapidamente para o Dennys não ver que meus olhos pela terceira vez se enchiam de lagrimas.
Sai sem poder provar dos charutos que momentos antes encheram minha boca d’água. Sai sem me despedir de ninguém, imaginando que na verdade ninguém perceberia que eu não estava mais ali. E sai sem ver o vídeo preparado para homenagear meu avô me questionando se o meu avô me desejaria ali.
Fechei a porta do carro e então pude desabar, deixei correr todas as lagrimas que meu organismo foi capaz de produzir. Só tive forças para voltar para casa e jogar umas mudas de roupa dentro da mala, pegar também meu note, uma garrafa de vinho e voltei novamente para a rua só que agora em direção ao apartamento de Santos.
Não tenho condições de ver e nem falar com ninguém. Pretendo me exilar nesse apartamento e só voltar a São Paulo quando meus pensamentos começarem a fazer algum sentido. Quero poder chorar sem ser interrompido, quero poder questionar sem ter que ouvir conselhos ou palavras de conforto, quero poder beber todo o vinho que meu corpo puder suportar.
E nesse momento o que mais quero é ficar sozinho, ainda mais sozinho do que sempre estive.