sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Reencontro

Nessa terça-feira tive o privilegio de vivenciar um dos momentos mais emocionantes de minha vida. Um misto de sofrimento e amor, de abandono e aconchego, de total desespero e alegria, algo tão especial que penso carregarei junto de minhas mais belas lembranças para o resto de minha vida.

Cheguei cedo para mais uma aula e na ajuda de uma colega de curso, começamos a preparar o salão para a chegada dos demais colegas. Encarreguei-me de dispor as cadeiras em circulo enquanto a Mari separava os copinhos com água fluidificada que sempre tomamos no final de cada encontro. Preparamos também a iluminação, o volume da musica ambiente e nos sentamos cada um em seu lugar para esperar o restante do grupo.

A Mari é uma jovem senhora na casa dos 40 anos e enquanto aguardávamos os demais ela aproveitou para me contar que tinha entrado para o grupo de distribuição de sopa e que estava muito ansiosa para sua primeira experiência. Que seu marido havia relutado com a idéia dela sair a noite para atender indigentes no centro de São Paulo, mas que com a ajuda de sua cunhada que também freqüenta o Centro Espírita conseguiu convencê-lo de que não corria riscos. Revelei que também tinha muita vontade de fazer parte desse grupo, mas que me faltava coragem de encarar aquelas pessoas tão necessitadas. Não teria forças para lhe entregar um prato de alimento e depois virar as costas. Justifiquei que não estava desmerecendo a nobreza do trabalho de assistência realizado pela casa, mas que eu não conseguiria controlar meus impulsos e não me envolver além do permitido.

Aos poucos nossos colegas foram chegando e se acomodando. O Beto meu melhor amigo entre o grupo como sempre se sentou ao meu lado e começou a se queixar que estava com tanta preguiça que deseja nem mesmo estar ali. Ainda brinquei dizendo que o principal ele já havia feito que fora se arrastasse até o salão de aula, que aproveitasse os poucos minutos que tínhamos antes da aula começar para relaxar e tentar afastar essa má vontade que o cercava. Ele fez uma cara de quem ignorava o que eu acabara de dizer e ambos caímos na risada.

O Beto irônico como sempre percebeu que nosso professor estava já há algum tempo parado do lado de fora da sala conversando com a Lúcia, uma de nossas colegas de curso. Chegou a comentar que pela cara da Lúcia algo não estava bem. Dessa vez fui eu que não lhe dei atenção e comecei a preparar meu material de desenho caso eu sentisse a necessidade de desenhar durante o exercício mediúnico da segunda parte da aula.

Como acontece toda semana nosso professor fez a abertura da aula com uma breve oração de agradecimento ao plano espiritual por mais uma oportunidade de reencontro do grupo e pelo trabalho que iremos realizar.

Assim que foi oficialmente aberto nosso encontro ele junto de seu assistente sentou-se junto a nós completando o circulo. Avisou-nos que não teríamos aula teórica porque precisava dar uns avisos para alguns integrantes e precisava ouvir a opinião de todos.

Segundo ele alguns dos integrantes do grupo conseguiram desenvolver bastante sua mediunidade e estava na hora de se envolverem em novos desafios dentro da casa como as reuniões de assistência espiritual ou de tratamento dependendo é claro da disponibilidade de cada um.

Fiquei muito feliz em saber que meu nome constava nessa lista e que em breve poderei por em pratica tudo o que aprendi durante esses anos de curso. Que poderei ajudar as pessoas que vem até a casa em busca de socorro espiritual. Era tudo o que eu mais desejava desde que comecei a freqüentar o curso de desenvolvimento mediúnico. Sentir-me útil e retribuir a casa por tudo aquilo que recebi durante esses anos que lá freqüento.

Além de mim mais duas pessoas foram selecionadas para tal atividade e em seguida ele começou a questionar a todos sobre as ambições pessoais de cada um dentro da casa. O que gostariam de fazer, em que atividade desejavam trabalhar para que ele pudesse preparar cada um para a tarefa escolhida. A conversa seguiu descontraída ocupando todo o horário destinado a aula teórica.

No segundo período de aula nosso professor pede que a Lúcia coloque sua cadeira no centro do circulo já que faríamos um exercício muito especial e a nossa colega serviria de elo entre o nosso plano e o mundo espiritual. Pediu que ela fizesse exatamente como tinham combinado fora da sala e ela então começou a nos relatar o quanto precisava de nossa ajuda.

Contou-nos que sua cunhada havia falecido há poucos anos e que ela há exatamente seis dias sonhava com ela todas as noites. Que sua presença era tão forte que não conseguia se desligar e que precisava da ajuda de nosso grupo.

Entendemos que como sempre existia muito mais a ser dito, mas como sempre acontece à pessoa que busca auxilio é orientada por nosso professor a transmitir o mínimo de informação ao grupo, para evitar que aja influenciarão.

Permanecemos em silêncio e aos poucos fomos relatando o que víamos. Foi dito que existia uma mulher que só chorava, que estava exausta e em total desespero. O Beto relatou que via uma casa, um quarto escuro e era lá que essa mulher se encontrava. Ele e o Sr. Francisco começaram a nos falar das outras entidades que viam no local, mas nosso professor pediu que nos limitassem somente a tal mulher. Nisso eu conto que ela percebera nossa presença e nos pedia ajuda. Notando que o contato fora feito meu professor disse: Rodrigo se concentra nela e a traga para o circulo.

Fui inundado por um enorme sentimento de dor e sofrimento. Meu corpo parecia queimar em chagas de tanto que latejava. O cansaço era tamanho que pensei que não iria suportar. Já incorporado dei voz a entidade que gritava aos prantos por pedidos de socorro. Que não suportava mais a solidão e abandono. Lamentava por ter sido abandonada por seus familiares que a ignoravam e nem mais a ouviam. Que não sabia o que teria feito a eles para ser tratada dessa forma.

Posso relatar fielmente essas palavras porque sou um médium consciente e tenho controle de meu corpo e mente durante tal processo.

Meu professor se aproximou e começou a conversar com a entidade que usava meu corpo como veiculo par expressar seu desespero. Aos poucos foi lhe conscientizando que ela havia desencarnado e que não deveria mais sentir tanta dor e cansaço. Foi muito difícil, pois ela se recusava aceitar que tinha desencarnado.

Aos poucos nosso professor foi rompendo suas defesas e a fez entender que o conceito de vida é bastante relativo. Que ela continuava viva, só não mais encarnada, que deveria habitar um novo plano e seguir com sua evolução. Nisso ele pede para que ela perceba que outras entidades estavam ali para recebê-la. Pediu a Mari que desse comunicação a entidade que se aproximará e então fomos todos surpreendidos pelo transborde de emoção.

Quem acabara de chegar em socorro era a mãe da mulher que nos pedia ajuda. O reencontro das duas fora muito emocionante. Podemos sentir o amor, o carinho e admiração que existia entre as duas. Algo tão grandioso que penso só quem é mãe pode entender. Eu como filho e tendo a família que tenho, sei nunca ter vivenciado algo assim tão forte.

Nossa enferma fora socorrida não só por sua mãe, mas também por uma tia e uma amiga que vieram em seu encontro. Todas as entidades deram comunicação antes de seguirem unidas para o plano espiritual.

Ao final de nossa reunião, estávamos todos lavados em lagrimas. Felizes por termos sido o veiculo para algo tão grandioso como o reencontro dessas criaturas. A Lúcia era a mais emocionada por ter consigo ajudar sua cunhada a se libertar dos laços que a prendiam ao plano terreno.

Por mais que eu queira aqui registrar, será impossível por em palavras o que vivenciamos dentro daquela sala de aula. Sou muito grato a Deus, ao Centro Espírita e ao nosso grupo de estudos pelo enorme presente que recebi. Desejo que em breve, dentro das novas atividades que devo me envolver dentro da casa, possa auxiliar outras entidades da mesma forma que fizemos nessa terça-feira.

Despeço-me desejando que ela possa ser muito feliz junto de seus familiares e que encontre seu caminho rumo a sua evolução espiritual.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

18 Anos

Desde a semana passada que um assunto insiste em povoar meus pensamentos. A principio pensei ser capaz de ignorá-lo ou simplesmente arquivá-lo nessa enorme colcha de retalhos e perde-lo em meio a tantas lembranças. Porem ele se tornou recorrente e se faz presente a todo instante, estando eu envolvido em alguma atividade ou simplesmente desfrutando do ócio.

As revelações feitas por meu primo não me pegaram totalmente de surpresa porque eu sempre imaginei sem ter muita certeza que até determinado período de minha vida ele não me suportava. Tivemos sim uma infância e adolescia bastante conturbada. Quando criança eu o tinha como referencia por ser ele o primo com idade mais próxima a minha já que eu sou o neto caçula e ele três anos mais velho.

Sempre o buscava para juntos brincarmos. Adorava sua determinação e tentava imitá-lo, enfim fazia o que podia para que ele me visse como um amigo. Com o tempo percebi que isso não seria possível e desisti de buscar sua atenção. Criei afinidade com os demais primos já que eu estava um pouco maior e já podia brincar entre eles sem ser tratado como um bebe.

No início da adolescência nossos caminhos voltaram a se cruzar quando fui transferido de colégio indo estudar próximo a casa de minha avó. Minha mãe resolverá voltar a trabalhar e eu então ficava aos cuidados de minha avó que me buscava no colégio. Colégio esse que era o mesmo freqüentado por meu primo.

O ressentimento que ele tinha por mim também se manifestou no colégio e por vezes apenhei, ou tive que sofrer com as piadinhas dele e de seus amigos. Às vezes penso que ninguém passa impune pelo colégio. Sejam os fortões ou os fracotes, todos de alguma forma enfrentamos situações que irão nos acompanhar para o resto de nossas vidas.

Quando assumi minha homossexualidade enfrentei vários problemas dentro de minha família. Todos eles sempre às claras como ofensas, xingamentos, isolamentos, enfim vários foram os casos, mas entre eles um se destacou com enorme crueldade.

Aquele era o primeiro ano que passamos o Natal sem a presença de aminha avó. Ela morrera no inicio do ano e a família ainda muito fragilizada se reuniu na casa de minha tia para tentar comemorar a data preferida de minha avó, o Natal.

Lembro de ter chego cedo à casa de minha tia que me pedira ajuda na decoração do salão. Nessa época eu já enfrentava problemas, mas por ser uma notícia ainda recente, alguns dos familiares não tinham tomado partido e com isso consegui transitar mais tranqüilo entre eles.

Num determinado momento da festa desci a garagem para pegar um novo maço de cigarros e encontrei dentro de meu carro uma caixa de presentes. Sem muito pensar abri a caixa sem demora, afinal que não quer ganhar presentes no Natal. Ainda pensei que poderia ser de algum parente que preferiu fazer isso escondido por não ter coragem de manifestar seu carinho em publico e sem demora rasquei o embrulho e abri a caixa de papel.

Dentro da caixa encontro Uma escova de cabelos, Um estojo de maquiagem e um Sutiã. Junto a eles tinha um pequeno bilhete não identificado que dizia o seguinte:

Que esses presentes lhe tragam muita sorte nesse novo ano que se inicia e que você possa usufruí-los sendo você um travesti, cabeleireiro ou maquiador.

Mesmo suspeitando que o presente de grego tivesse vindo das mãos do Dennys ou de seu irmão Fahrid, nunca tive como comprovar até que na semana passada durante a conversa que tivemos, consegui a confirmação de que o arquiteto do tal plano fora mesmo o Dennys que o executou sozinho, sem a participação de outro integrante.

Desde semana passada que percebo algo de diferente. Sei que meus 18 anos foram a sem sobra de duvida o pior período de minha vida já que no período de 12 meses tive que conviver com o falecimento de minha avó com quem eu tinha uma enorme afinidade, meses depois a rejeição da Deborah e conseqüentemente a revelação de minha opção sexual, o afastamento de toda a família e por final a tentativa de suicídio.

O que volta a minha ótica não é a importância que esse ano teve em minha vida, mas sim as respostas que dele devo tirar. Vou tentar exemplificar tendo o Dennys como modelo. Por 18 anos ele literalmente me odiou. Nunca tentou me conhecer ou se permitiu se aproximar daquele que segundo ele tinha lhe tomado o titulo de queridinho da família. Do outro lado estão meus pais, tios, primos e demais parentes que pelo mesmo período de 18 anos me amaram incondicionalmente. Fizeram todos meus gostos e vontades e tinham um enorme orgulho do ser humano que eu estava me tornando.

Chega a ser irônico já que tudo se inverte exatamente no mesmo período. Os que me amavam passaram a me odiar e o que me odiava se abriu e se aproximou para tentar compreender um pouco daquela pessoa que ele via arrasada a sua frente.

Hoje penso que já passei pelo pior momento de minha vida e se Deus me der forças jamais o reviverei, afinal não há nada pior do que uma pessoa atentar contra sua própria vida. Vejo que nem a brutalidade desse fato foi capaz amolecer ou levar luz aos corações petrificados de meus familiares. Mas não posso negar que algo de bom aconteceu, pois dali fez brotar essa enorme afinidade, carinho e amor que hoje existe entre eu e meu ex algoz.

Sinto-me cego, até mesmo insano, pois nego a todo o momento aquilo que salta aos olhos. Tento fechá-los, finjo não ver, não ouvir. Tento esquecer mesmo sabendo que a magoa se manifesta em cicatrizes que constantemente estão a sangrar. É uma tentativa covarde de não admitir que para eles simplesmente deixei de existir.

Por mais que eu tenha total conhecimento desse fato é difícil admitir. Encaro isso como o sepultamento de uma pessoa que ainda vive e respira, que se expressa e que ama. Não consigo conviver com essa idéia de que para eles simplesmente morri.

Sei que devo seguir em frente e não mais me contentar com migalhas. Que devo buscar o amor na companhia de outras pessoas e não mais esperar por um chamado de minha família. Sei ser uma pessoa agradável, com bons e amigos que me amam. Sei ter o dever se ser feliz. Isso é lógico, é meu lado prático, racional falando. Pena que também existe um lado emocional, sentimental e esse é meu maior adversário, pois é ele que me prende e me faz sofrer.

Percebo que meu maior adversário não é minha família ou qualquer outra pessoa, mas sim um coração carente que mesmo cansado de tanto sofrer, ainda se prende a um amor que penso jamais voltará a existir.


quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Revelações

Logo após deixar a Gi em sua casa, liguei para meu primo Dennys avisando que eu passaria a noite em São Paulo e que assim que saísse do meu curso iria para minha casa onde também funciona nossa agência. Que eu precisava pegar algumas coisas e queria saber se ele aceitaria comer uma pizza comigo já que eu não o via há bastante tempo e estava com saudade.
Assim que sai do curso segui direto para a casa do Dennys e como o combinado dei um toque no seu celular evitando assim dar de cara com meus tios que com toda certeza não ficariam nada felizes em me ver bater em sua porta.
Assim que entrou no carro me deu um beijo no rosto e novamente me cumprimentou por meu aniversario. Disse que gostaria de ter estados ao meu lado, de comemorar como nos velhos tempos, mas como tenho passado esse tempo em Santos, a distancia dificultou seu comparecimento. Agradeci novamente seus votos de felicidade e então seguimos para minha casa.
Já em casa subimos para o meu quarto, pois eu queria pegar alguns livros, roupas e os esboços dos contos que escrevi a quatro mãos com o Ale. Desejava levar esse material para Santos e analisar com carinho e atenção. 
Foi ainda no meu quarto que o Dennys teve a idéia de acendermos a lareira, já que a noite estava fria e ele estava se sentindo meio nostálgico. Desejava relembrar dos finais de semana que vínhamos quase todos os netos dormir nessa casa que na época pertencia a minha avó. 
A lareira era acesa e nós deitávamos todos no tapete da sala, enquanto ela sentada em sua poltrona nos contava histórias de nossa família, de sua juventude, da chegada deles ao Brasil, de como conheceu meu avô e muitas outras.
Fiquei surpreso com a idéia do meu primo e sem suspeitar de nada concordei com sua sugestão. Pedi que ele se encarregasse disso, enquanto eu terminava de separar as coisas que levaria comigo para Santos.
Assim que desci encontrei a lareira acesa, a mesa de centro afastada e o Dennys deitado no chão apoiado em uma enorme almofada, da mesma forma como ficávamos quando crianças. Tinha preparado igualmente um espaço para mim também com uma almofada e já estava com a garrafa de vinho aberta e o folder da pizzaria na mão. Comentei que há tantos anos não fazíamos isso e que eu quase podia sentir a presença da vovó, e ele concordou dizendo que também só pensava nela e em seu sorriso.
Deitei ali ao lado de meu primo e sem muito rodeio perguntei como estavam as coisas na agência. Que eu sabia que os abandonará, mas que a cada dia eu me sentia mais distante dessa atividade. Ele me respondeu que a agência estava indo muito bem, que as meninas estavam com novos projetos e até me falou um pouco sobre eles. Percebi que meu primo se referia aos projetos sempre citando o que cada uma delas faria, mas não se incluiu neles em nenhum momento. Imaginei que ele também já não se encontrava mais dentro da agência, mas evitei comentar, pois até hoje não consegui resolver nem meu dilema de voltar ou não a fazer parte dessa empresa. Ouvi com atenção tudo o que me falava até que fomos interrompidos pela chegada de nossas pizzas.
Comemos sem pressa enquanto falamos da Carol nossa sócia e prima. Eu queria saber como ela estava com a situação da doença do tio Pedro e também como ele vinha reagindo ao tratamento. Como eu já sabia, a Carol tinha saído lá de casa para voltar para casa dos pais, queria estar ao lado da tia Jamile que passara a viver em função do tio Pedro. Esse por sua vez vinha lidando muito mal com o tratamento. O tumor dessa vez voltará de forma mais violenta e os primeiros medicamentos não fizeram efeito levando assim ele a pesadas sessões de químio e rádio terapia. Que passa alguns dias internado e outros de molho em casa sem poder por a cara para fora devido à baixa imunidade.
Comentei meio sem pensar que desejava fazer uma visita ao tio Pedro. Tentar levar um pouco de apoio, carinho, mas que tinha medo de sua reação. Não a de me maltratar já que isso era quase certo, mas dele entender vinha visita como uma despedida, um adeus a um moribundo. 
Com uma feição muito rígida o Dennys me perguntou para que tudo isso. Se eu não estava cansado de ser escorraçado por essa família, que ele no meu lugar abriria uma garrafa de champagne para comemorar não só a morte do tio Pedro, mas também a de seu pai já que os dois eram os maiores opositores de minha presença no seio dessa família. Sua reação não me surpreendeu, pois o Dennys sempre foi muito mais duro do que eu e chego até a acreditar que ele no meu lugar seria sim capaz de festejar a morte dessas e de outras pessoas de nossa família.
Tentei justificar meu pensamento de que talvez essa fosse a ultima vez que veria meu tio vivo, que pensava não só nele, mas em nossa tia e primos e principalmente na Carol que assim como ele Dennys eram as únicas pessoas que me aceitavam e foi então que ele me surpreendeu.
Interrompendo minha linha de raciocínio ele começa a bater palmas e fala:
Lindo, muito lindo, você perde seu tempo pensando neles, enquanto eles riem de você pelas costas, desejando que você os esqueça da mesma forma que eles já o esqueceram. 
Ainda no mesmo tom me perguntou como eu havia passado meu aniversario. Pego de surpresa por sua pergunta decidi me esquivar alegando que tinha comemorado ha data sozinho, mas feliz com um belo jantar num restaurante que gosto muito. Queria esconder a vergonha vivida em tal data.
O Dennys com o olhar bastante seco indagou se o tal jantar aconteceu antes ou depois de eu comer o bolo pullman e cair bêbado no sofá. Espantado com o que acabara de ouvir perguntei quem havia contado para ele sobre esses fatos e ele respondeu que eu mesmo através de meu Blog. Que no dia seguinte ao meu aniversario minha amiga Gi ligou na agência para falar com a Carol e como não a encontrou resolveu falar com ele mesmo. Disse que ele deveria me procurar, pois eu precisava de sua ajuda. Ele sem entender o porquê questionou o pedido e ela para dimensionar a gravidade do problema revelou a existência de meu Blog.
A partir desse momento o Dennys desembestou a falar. Primeiramente se referindo ao conteúdo dos meus textos e como isso o chocou. Que ele sabia sim que eu sempre sofri com esse isolamento que me foi imposto, mas nunca tinha visto isso pelo meu ponto de vista. Nunca tinha visto e nem sentido o quanto é grande esse sofrimento e principalmente o poder de destruição que isso me causa.
Falou sobre a morte do Ale e de como isso deve me machucar, já que não existe memória do fato. Da minha solidão e foi falando, falando... Eu ali a sua frente só a ouvir e a entender que ele com toda certeza devorara todo o conteúdo do meu Blog já que estava mencionando até o dia dos pais. De como eu fui isolado, indesejado e pior de tudo de como eu me senti diante disso tudo.
A revelação de que ele tomara conhecimento da existência de me Blog em nenhum momento me abalou e quanto eu estava prestes a encerrar o assunto o Dennys novamente me surpreende revelando não mais os meus, mas sim os seus segredos.
Contou-me que quando éramos crianças ele me odiava com todas as forças. Que no seu entendimento eu chegara para roubar o seu titulo de neto caçula, tomar a atenção e colo que recebia de todos. Que eu por ser um filho, um neto quase impossível de ser concebido devido aos problemas que minha mãe enfrentava na gestação passei a ser a criatura mais desejada por toda família e antes mesmo de meu nascimento ele já me odiava.
Justificou que graças à diferença de três anos que existe entre nós, nunca encontrou dificuldade em me bater ou se mostrar superior. Que eu o irritava só por existir e o que mais o revoltava é que mesmo sempre me hostilizando ele sabia que eu o adorava e queria de alguma forma sempre estar ao seu lado. Quanto mais eu o buscava, mais ele me hostilizava.
Quando jovens me invejava, pois eu era naturalmente belo, trabalhava como modelo e a cada dia fazia mais sucesso. Que ele para se sentir bonito se entregava a um rigoroso treino físico passando horas na academia para mostrar a todos que ele também era bonito, forte, malhado.
Invejava minha educação, meu porte, minha inteligência. Rasgava anúncios nos quais eu posava como modelo e praguejava por eu existir.
Anos mais tarde quando me assumi homossexual e decepcionei toda a família ele pode se sentir vingado já que o pavão caia em desgraça. Eu perdia minha família, minha referência, minha vontade de viver e ele ao contrario nunca se sentira tão vivo. Bebia da minha desgraça e desejava que ela fosse ainda maior.
Mas um dia atende seu celular e que do outro lado estava nossa prima Carol aos prantos, desesperada, pois tinha voltado para casa e me encontrado desacordado estirado na cama com um monte de frascos de remédios vazios. Que enquanto corria para o hospital para se encontrar com nossa prima tomou conhecimento de que a criatura que ele tanto odiara sofria tão intensamente chegando ao ponto até de tentar se matar. Que enquanto dirigia de sua casa até o hospital, chorava e rezada, pedindo a Deus uma nova oportunidade para nós dois.
Meu primo me contava tudo isso com o rosto lavado em lagrimas, pedindo-me perdão por tantas vezes ter desejado o meu mal. Que sempre que lembrava agradecia a Deus por hoje sermos grandes amigos e às vezes até confidentes. 
Pediu-me um abraço e com a cabeça apoiada em meu ombro chorou de soluçar. Eu como já era de se esperar me entrei também ao pranto e deixamos as lagrimas lavarem não as minhas magoas, mas sim as dele.

Eu sempre soube que a minha tentativa de suicídio as 18 anos de idade mexera com o Dennys de uma forma especial. Criou um laço verdadeiro entre nós, fez surgir um belo e verde campo onde antes habitava um estéril deserto. Viramos verdadeiramente primos, amigos e até mesmo irmãos. Mesmo ciente disso tudo, jamais pude imaginar que antes disso ele me odiasse tanto. Que me visse como um intruso em sua família, um rival.
Tal revelação fez surgir uma nova chama num peito sempre esperançoso. Quem sabe um dia mais alguém de minha família consiga compreender um pouco dessa criatura chamada Rodrigo.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Sintonia

No sábado fui acordado as 7:00 horas da manhã por um celular histérico que insistia em se fazer notar. Era minha querida Gi pedindo para que eu fosse buscá-la. Disse que estava a caminho e em 30 minutos seu ônibus chegaria à rodoviária. Respondi que estaria lá a sua espera e me levantes ainda sem entender o que estava acontecendo.

Desde o dia do meu aniversario que não nos falávamos, mas a todo momento pensava nela e no dilema que ela teria pela frente. Desejava ligar, perguntar se estava tudo bem, mas preferi permanecer distante para não piorar ainda mais o desfecho da relação dela com o Fernando.

Tomei uma breve ducha para acordar e segui para a rodoviária. Não sei se me atrasei ou seu ônibus que se adiantou, mas quando lá cheguei encontrei minha amiga com o cigarro na boca e cara de poucos amigos. Desci do carro e nos demos um longo e apertado abraço. Não precisei perguntar nada, pois a chegada dela em Santos já indicava que as coisas não estavam bem, mas mesmo ainda abraços ela falou:

Di, acabou...


Seguimos direto para meu apartamento, passando somente na padaria para pegar algumas coisas gostosas para o café da manhã. Enquanto eu preparava os ovos mexidos,

pedi para ela fazer um café, já que o meu é horrível, diria até “intomavel”. Só mesmo com gente em casa para eu fazer uma refeição descente, rs.

Sua aflição era tão grande que em dez minutos despejou sem parar nem para respirar toda a conversa que teve com o Fernando no dia anterior. De como foi difícil fazê-lo entender e aceitar.

Segundo a Gi, o Fernando a responsabilizou pelo termino do namoro. Acusou ela de sempre preferir a nós seus amigos do que a ele. De não se entregar a relação e uma série de coisas que não vale a pena registrar.

Passamos toda a manhã ali na cozinha. Emprestei meu ombro para que ela deixasse sair toda magoa que vinha acumulando e quem sabe conseguisse exorcizar de vez esse encosto chamado Fernando.

Não tenho problema em falar sobre ele aqui nesse Blog, já que a Gi conhece muito bem meus pensamentos a respeito do Fernando e do tipo de relação que os dois estavam tendo. Eu o definia como um vampiro, um sangue suga que se alimentava da Gi privando-a de sua leveza, de sua vontade de viver. Não encontrava mais em seu rosto aquele sorriso sacana de quem estava sempre prestes a aprontar a alguma coisa. Minha amiga andava sem brilho, apagada e vivendo aquela rotina sem sal que o Fernando tentava convencê-la a gostar. Tirando os momentos onde ela estava conosco, sua vida se resumia do consultório para casa e nada mais.

Falo por experiência própria que é muito mais simples resolver os problemas alheios do que os nossos, mas como ser indiferente as pessoas que amamos?

Como passamos a manhã toda comendo seria impossível pensar em almoçar e então resolvemos descer e caminhar um pouco pela praia. Esse é uma habito que sentirei muita falta caso um dia resolva voltar para São Paulo.

Hora falamos dos problemas dela, outros momentos dos meus e o dia passou sem que nos déssemos conta. Como o desanimo e a preguiça tomava conta dos presentes, resolvemos pedir uma pizza e jogar uma partida de buraco.

No domingo passamos a manha visitando o aquário de Santos. Quando criança esse era meu passeio favorito e passava horas na companhia de meus primos a observar os peixes e a imaginar grandes aventuras marinhas e batalhas de piratas. A saudade daqueles dias foi inevitável, mas o estomago falou mais alto e fomos saciar a fome no mesmo restaurante onde conheci as simpáticas velinhas. Pena que dessa vez não nos encontramos.

Após o almoço sentamos em um quiosque na praia e falamos sobre o Chris meu amigo que desde minha retirada de São Paulo, passou a me ignorar e só fala comigo quanto seu desejo é de me ofender. Mesmo chateado entendo que o Chris é uma criança grande, que mesmo convivendo com sua família é muito mais solitário que eu. Que essa postura que vem dento nos últimos dias nada mais é do que uma forma de chamar minha atenção. Conheço aquele maluco a muitos anos e penso o conhecer melhor que ele mesmo, hehe.

Falamos muito sobre isso e a Gi se mostrou satisfeita por perceber que pela primeira vez estava me pondo acima de todos e não cedendo as chantagens emocionais ou pressões dos meus primos para meu retorno ao trabalho.

O bom de falar com a Gi é que não preciso falar, pois ela entende meus gestos, olhares. Compreendemos-nos no silêncio o que para grande maioria é impossível.

Sentindo que minha amiga ainda precisava de colo, consegui convencê-la a ficar aqui comigo até terça-feira, dia em que tenho aula em São Paulo. Hoje ela ligou para sua assistente e pediu para que seus pacientes fossem re-agendados, pois estava indisposta, rs.

E assim seguimos os dois conversando em silêncio uma prosa que só a nós faz sentido.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Vinte e Seis

Tem horas que nos esquecemos de agradecer e só nos lembramos de reclamar.

Ontem, dia de meu aniversário, passei o dia tentando afastar esse tipo de pensamento, de não cobrar, de não esperar, de não contar com algo que intimamente eu sabia que não iria se realizar.


Fui despertado por volta das oito horas da manhã pela Gi que me ligava para me dar os parabéns. Aproveitei para mais uma vez me desculpar pelo incidente que causei no final de semana e ela aproveitou para desabafar que eu na verdade só antecipei uma conversa que ela a algum tempo vem adiando. Que a relação dela com o Fernando não está boa e que acredita ter chego o momento de por um ponto final, já que é perceptível a todos a falta de afinidade que existe entre os dois.

Fiquei um longo tempo ouvindo os desabafos dessa querida amiga e assim que desligamos resolvi levantar da cama e fazer minha caminhada pelo calçadão. O dia estava cinzento, e caia uma leve garoa, tudo em perfeita harmonia com meu estado de espírito.

Enquanto caminhava pela praia recebi os cumprimentos dos meus primos e sócios Dennys e Carol, e da Laura também sócia e quase uma prima. Senti uma vontade enorme de estar ali junto deles, de receber esse carinho pessoalmente. De sentir os abraços, os beijos...

Enquanto voltava para casa lembrei-me de minha avó que dizia que não importa a data, o tamanho da festa ou a quantidade de pessoas, mas um aniversario tem que ser comemorado, festejado nem que seja somente com um bolo, mas que todo aniversariante tem o direito e dever de cortar um bolo e fazer seu pedido. Ali na areia da praia, desejei ter um bolo mágico que me permitisse trazer de volta minha sempre doce avó.

Com suas palavras ecoando em minha mente, fui até o supermercado em busca de um bolo para comemorar mais um ano de vida. Segui até a sessão de padaria e escolhi um belo bolo de chocolate. Aproveitei para pegar mais algumas coisas para o almoço e jantar e enquanto caminhava dentro do supermercado emburrando o carrinho fiquei imaginando aquele bolo sendo partido por uma família ou um grupo de amigos. Imaginei todos cantando parabéns, os risos e o bolo sendo cortado.

Notei que esse não era o meu bolo, que eu não tinha com que dividi-lo com quem saboreá-lo. Voltei para a sessão de padaria e deixei o belo bolo no mesmo lugar de onde o retirei e para não contrariar os pensamentos de minha avó, peguei na prateleira um bolo Pullman que combinava muito mais com a grandeza da festa e a importância da data.

Depois de uma longa ducha resolvi preparar meu almoço. Pensei em algo especial, que eu gostaria de comer, mas tudo que desejei era por de mais trabalhoso e impossível de ser preparado para uma só pessoa. Desisti também de meu almoço de aniversario e me contentei com um sanduíche de atum.

Os amigos foram ligando, um após outro. Piadinhas foram feitas, desejos de paz, saúde, felicidade, amor, prosperidade foram encaminhados e por um momento me fizeram me sentir querido, amado. Ao termino de cada ligação agradecia mentalmente o carinho recebido e pedia a Deus que os dessem em dobro tudo aquilo que acabaram de me desejar.

A tarde deu lugar a noite e sem apetite mordisquei o restante dos frios que tinham sobrado do final de semana. Abri a primeira garrafa de vinho e brindei a conquista de mais um ano.

O telefone por outras vezes voltou a tocar e a cada nova ligação meu coração ingênuo e sonhador se colocava em alerta imaginando que dessa vez poderiam ser os meus pais do outro lado da linha me ligando para me cumprimentar.

Alem dos telefonemas recebi também belas mensagens por e-mail e também aqui nesse mesmo Blog. Foi em um desses momentos onde consultava minha caixa de mensagens que vejo por volta das 10:00 da noite uma nova mensagem com o nome de meu pai. Parecendo um menino com um largo sorriso abri sem demora sua mensagem que dizia o seguinte:

Parabéns.

Seja feliz.


O sorriso deu lugar ao pranto e desejei nunca ter recebido tal mensagem. Preferia me iludir imaginado que meus pais se esqueceram da data, que por distração deixaram passar. Qualquer mentira seria melhor, mais confortante do que aquelas secas e artificiais palavras. Indaguei como ele pode esperar o dia inteiro para me dizer somente aquilo. Penso que seria mais verdadeiro se ele tivesse feito como minha mãe que por mais um ano me ignorou.

Tentei não chorar, não deixar que destruíssem o pouco que tinha nessa data, mas o ódio que sentia de mim e a decepção foram tão grandes que abri uma nova garrafa de vinho e mesmo com o vento gelado que sobrava lá fora, resolvi sentar na varanda e sorver diretamente do gargalo. todo o conteudo daquela garrafa. O desejo de esquecer, de me anestesiar era tão grande que não tinha tempo nem de encher um copo, virava gole após gole desejando que todo deixasse de fazer sentido.

Pensava em como estava comemorando em grande estilo o meu aniversario e foi então que me lembrei do bolo. Como poderia me esquecer do bolo.

Sobre o balcão da cozinha cortei o primeiro pedaço fazendo meu pedido. Ao contrario dos outros anos que sempre pedi ser aceito e perdoado de um crime que nem mesmo cometi. Resolvi mudar o pedido e desejei não mais sentir, não mais me importar, não mais lembrar do que foi e nem do que poderia ter sido. Desejei morrer e renascer mais forte, indiferente e sem coração. Desejei ser o monstro que há anos tentam me fazer acreditar ser. Desejei esquecer de tudo e principalmente de mim.

Sem ter para quem entregar a primeira fatia de bolo, resolvi eu mesmo saboreá-lo e assim devorei não só a primeira e a segunda fatia, mas todo aquele maldito bolo desejando a cada mordida acordar desse pesadelo.

Moralmente ferido joguei-me no sofá da sala esquecendo de agradecer o carinho recebido dos amigos para somente lamentar a falta de atenção por parte da minha família. E foi assim que adormeci sentindo na boca o gosto amargo de fel dos meus 26 anos de vida.


terça-feira, 22 de setembro de 2009

Festa Surpresa

Semana passada, combinei com minha amiga Lú, de que ela viria aqui para Santos para juntos passarmos o final de semana. Aproveitando a ocasião ela entrou em contato com alguns amigos em comum e juntos bateram a minha porta com chapeuzinhos de festa e bolo na mão. Seria trágico se não fosse cômico ver aquele bando de marmanjos com chapeuzinho do Donald e nariz de palhaço, gritando PARABÉNS ainda no hall de entrada, rs.

Essa não é a primeira vez que ganho uma festa surpresa, mas sem sombra de duvidas foi a mais especial não por sua proporção, mas sim pela generosidade de meus queridos amigos que se abalaram de São Paulo a Santos só para não me deixar sozinho.

Além da Luciana vieram também a sua irmã Bia, a Gi com seu namorado Fe, o Marcelo e também o meu casal preferido Gua e Fernanda. Senti falta do Chris no meio dessa turma, mas esse é um caso a parte que mais cedo ou mais tarde terei que enfrentar.

Conversamos um pouco enquanto cada um se instalava e então saímos para aproveitar a noite. A pedido do aniversariante fomos todos para uma boate em São Vicente. tanto tempo que me privo de viver que minha vontade era de me entregar de corpo e alma sem pensar no amanhã.

Enquanto esperávamos uma mesa, seguimos todos para o bar. É impressionante como a sede nessa turma nunca é saciada hehe.

Decidido a enfiar o pé na jaca, pedi aos meus queridos que não me impedissem de nada. Mesmo que se eu estivesse travado de tanto beber e em surto resolvesse tirar a roupa, que ninguém me impedisse. É claro que nem bêbado eu arrancaria minha roupa, pelo menos eu acho que não, rs.

Nossa mesa nunca que ficava pronta, mas para mim isso era indiferente já que eu estava por de mais entretido com o conteúdo do meu copo. A única coisa que nos lembrava a cada segundo da demora da mesa era o Fernando namorado da Gi que não conseguia esconder seu descontentamento por estar ali, já que ele não é chegado a esse tipo de programa. Tentei ignorá-lo e me concentrar nos meus amigos já que eles sim mereciam minha total atenção.

Assim que nossa mesa foi liberada, nos acomodamos e pedimos alguns aperitivos além é claro de uma dose de tequila para todos vinda com os comprimentos do aniversariante que nesse momento se levantava para agradecer a presença de todos.

Como se o universo conspirasse a nosso favor, o DJ aperta o play soltando em alto e bom som em todas as caixas I Gotta Feeling –Black Eyed Peas. Eu que não me agüentava mais de vontade de dançar, peguei a Lú pelas mãos e corremos para a pista aos berros de que a noite seria muito boa.


I gotta feelin'

That tonight's gonna be a good night

That tonight's gonna be a good night

Tonight's the night

Let's live it up

I got my Money

Let's spend it up

Go out and smash it

Like Oh My God

Jump off that sofa

Let's get get off

I know that we'll have a Ball...


O ritmo das musicas, a presença dos amigos, a letargia causada pelo álcool fizeram com que a noite passasse sem ser vista, tudo estaria perfeito se não fosse um pequeno desentendimento que tive com o Fernando namorado da Gi.

Em certo momento retornei a mesa e pedi que a Gi viesse dançar um pouco comigo. Nisso o Fernando segurou no braço dela e cochichou algo em seu ouvido, a Gi então disse que depois me encontraria lá na pista. Notei que algo não estava bem, mas para evitar problemas voltei com a Bia e o Marcelo para a pista de dança. Não sei se o álcool ou o inconformismo me levaram novamente a mesa em busca da Gi e dessa vez quem me respondeu foi o Fernando dizendo que ela não iria dançar com a gente.

Sentindo meu sangue ferver resolvi falar todas as verdades que há tempos ele merece ouvir.

Primeiro falei que ela estava entre amigos e que ninguém ali iria faltar com o respeito com eles. Que conheço a Gi há muito mais tempo que ele, dez anos e não poucos meses como ele, se durante esse tempo nunca rolou nada entre nós, não seria agora que algo aconteceria. Que se ele não se garante, deveria pelo menos respeitá-la e não fazê-la passar por esse tipo de constrangimento na frente das pessoas que gostam dela de verdade. Nada como algumas doses de tequila na cabeça para te fazer soltar a língua, rs.

Quando tudo parecia perdido, o Gua e a Bia conseguem reverter o caos e no fim até o Fernando acabou se juntando a nós na pista de dança e assim terminamos a noite todos bêbados e felizes.

No sábado nosso grande Chef Gua nos preparou um maravilhoso jantar e domingo foi totalmente dedicado ao ócio já que saímos somente para uma breve refeição no Shopping para que no meio da tarde todos meus amigos retornassem para São Paulo.

Quanto a minha discussão com o Fernando, sei que estava errado, mas pela primeira vez em muito tempo senti o velho Rodrigo se manifestando. Um cara atencioso, agradável, educado. Um rapaz de língua sempre afiada, porem justa e que jamais leva um desaforo para casa, que sempre lutou por seus ideais e amigos, mas cansado das sucessivas pancadas foi com o tempo se apagando, se deixando envenenar a ponto de acreditar que já estivesse morto.

Além do grandioso presente de poder comemorar antecipadamente meu aniversario na presença de amigos tão queridos pode também descobrir que ainda existe brasa acesa dentro desse coração que imaginava há tempos adormecido.


sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Vendo Por Outros Olhos

Impelido pelos bons sentimentos conquistados nesse final de semana, decidi nesta terça-feira, que era hora de encarar mais uma ferida que recentemente foi aberta. Há poucos dias fui surpreendido por meu professor que durante nossa aula de desenvolvimento mediúnico, percebeu meu abatimento e pediu ao grupo de alunos que entrassem em sintonia comigo, para que fosse feita uma avaliação e também prestado uma ajuda espiritual.

Como já mencionei aqui nesse Blog, o exercício saiu do controle e meus colegas foram relatando fatos, sentimentos que por anos venho escondendo e enganando a mim mesmo. Desde esse dia me afastei do grupo temendo que um colega mais indiscreto me questionasse sobre alguém assunto que fora revelado.

Chegando ao Centro preparei-me mentalmente para um possível confronto e entrei em nossa sala de aula. Não sei se algo foi combinado entre eles, ou se o tempo agiu em meu favor fazendo com que todos esquecessem o ocorrido. Aliviado pela falta de interesse dos colegas fui me integrando com o grupo e consegui até participar ativamente do exercício final.

Após o termino da aula, decidi não voltar a Santos. Estava com vontade de ver gente amiga, de conversar e de imediato liguei para a Luciana convidando-a para juntos fazermos um lanche na padaria Bela Paulista. A Lú, é minha amiga desde os tempos de infância. Morávamos no mesmo prédio e ela até hoje permanece no mesmo endereço morando com sua mãe e irmãs, prédio esse que continua a ser residência de meus pais.

Para evitar possíveis problemas combinei de apanhar a Lú na esquina de sua casa. Preferi evitar um encontro casual com meus pais que sem saber de minha proximidade poderiam avistar meu carro ali parado e de certo imaginariam que eu estava querendo algo.

A Luciana já me esperava na esquina e então seguimos para a padaria. Resolvemos nos servir no Buffet já que a fome parecia ser ainda maior que à saudade que estávamos um do outro. Aos poucos nos colocando a par dos últimos acontecimentos da vida de cada um. Quase morri de rir quando ela me contou que mais uma vez está sozinha. Esse é o terceiro namorado só esse ano. Como ela mesma disse, curte a parte boa e quando começa a dar defeito passa pra frente e parte para o próximo. Ela que ta certa.

Além de nos conhecer desde a primeira infância, estivemos um ao lado no outro nos momentos mais difíceis de nossas vidas. Há 10 anos eu estava ao seu lado quando o tio Luis seu pai faleceu de câncer. Foi no meu colo que ela chorou e minha mão que segurou durante todo o velório. Lembro de ter dormido em seu quarto quase um mês, pois ela evitava o contato com os demais familiares e a pedido de sua mãe, meu pais permitiram que eu ficasse alguns dias ao lado dela.

Quando me assumi gay para minha família foi na casa da Lú que busquei socorro após receber o primeiro tapa na cara de minha mãe e ser educadamente convidado a me retirar por meu pai. Foi a Lú e a tia Beth que enxugaram minhas lagrimas e me recolheram na primeira semana já que naquele momento eu não sabia para onde ir.

Mas nossa vida não é costurada somente pela dor, temos ótimos momentos juntos e alguns chegam a ser até constrangedores como a vez que fomos levados ao Play Center pelo tio Luis e sem pensar nas conseqüências resolvemos no final da tarde pegar um taxi e ir para o Cinema. Claro que fizemos isso sem avisar nossos pais e perdemos a hora dentro da sala de cinema. Mais tarde quando novamente pegamos um taxi para voltar para casa encontramos duas viaturas de policia paradas na frente de nosso prédio, já que nossos pais imaginavam que tínhamos sido seqüestrados, rs.

Essa foi só uma das muitas que aprontamos rs.

Aproveitei e contei a ela que eu tinha voltado a Tabatinga. Relatei em detalhes tudo o que lá fiz e as lembranças que pude reativar.

Ela disse que eu deveria tela chamado. Que há tempos ela esperava por isso, mas nunca falou diretamente para não me pressionar. Que conhecendo meu temperamento imaginava que mais cedo ou mais tarde eu teria que encarar esse obstáculo, mas imaginou que eu a convidaria já que estávamos juntos naquele dia e poderíamos ter ficado em sua casa.

Pensei em explicar meu motivos, mas percebendo nela uma maior abertura resolvi pressioná-la a me relatar novamente como foi o acidente.

Sabendo que esse fato sempre me deprime por além de perder o Ale, ainda não conseguir me recordar de como tudo aconteceu, ela tentou se esquivar, mas percebendo que naquele momento eu estava irredutível, abriu sua caixa de Pandora e libertando assim alguns dos meus demônios.

Como o carro deles estavam um pouco distante não presenciaram a batida. De onde estavam o máximo que puderam perceber foi um grande barulho e em seguida foram obrigados a parar o carro assim como todos os demais motoristas que estavam naquele momento na estrada.

O Carlos seu namorado desceu correndo do carro porque viu logo à frente o meu carro jogado meio que na diagonal no acostamento. Conforme se aproximou notou que não era o meu carro o acidentado e sim era o carro do Ale que tinha entrado praticamente em baixo de um caminhão. Notando a gravidade do acidente, voltou correndo para o seu carro gritando para ela ligar para emergência, pois o Ale estava ferido.

Ela conta que desceram do carro e foram até o meu, mas eu estava paralisado, segurando fortemente o volante em minhas mãos enquanto a Gi me chacoalhava e gritava tentando me despertar do estado de choque que acabara de entrar.

Não posso registrar nesse Blog todo o drama que se seguiu desde a batida até a chegada do resgate que levou uns 15 minutos até chegar ao local. Como foi a retirada do corpo do Ale de dentro do carro que segundo eles e os paramédicos morreu de imediato com o impacto da colisão e nem o que veio a seguir. Por mais que esse Blog seja um registro de tudo que acontece em minha vida, esse fato é pessoal de mais e merece ser guardado somente na memória daqueles que lá estavam e vivenciaram esse drama.

Eu mesmo vivenciando tudo fui abençoado ou amaldiçoado com o dom do esquecimento. Tudo o que sei dessas horas de extrema agonia saiu da boca de duas pessoas, Gi e Juliana que já relataram inúmeras vezes todos os momentos desse dia que foi sem duvida o pior de toda minha vida.

Novamente ouvi todo o relato e como nas vezes anteriores me senti como espectador e não como personagem de uma história que é minha e da pessoa que tanto amei. Tentei imaginar cenas, vozes, diálogos, mas sabendo que esse processo me lavaria novamente a depressão segurei forte nas mãos da Lú e agradeci por ela ter novamente voltado aquele local e revivido de forma tão intensa todos os acontecimentos que determinaram a morte do Ale.

Emocionados nos abraçamos e fomos aos poucos nos recompondo e voltando a assuntos de menor importância.

Passamos lá toda a madrugada e inicio da manhã para então eu devolve-la a sua casa, mas com a promessa de que viria passar o final de semana comigo aqui em Santos.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Bons Momentos

Há dias venho tentando colar os cacos para entender melhor à imagem que vejo diariamente refletida no espelho. Tenho que admitir que tal processo tem contribuído e muito para minha instabilidade emocional pois me obrigo a visitar o meu passado e reviver todo tipo de lembranças, sejam elas boas ou ruins.
Descortino fases da minha vida como infância, adolescência. Revivo épocas como colégio, faculdade, recordo de pessoas, fatos, lugares, enfim tento unir todos os fragmentos que determinaram quem sou, meu caráter, meus ideais.
Sei que sou filho, primo, amigo, visinho, homem, gay... Mas na verdade o que vem a ser tudo isso se não títulos, arquétipos que recebemos por viver em sociedade.
Pretendo descobrir quem é a pessoa que ostenta todos esses títulos, o que ela pensa, o que a faz sonhar. Quais são seus medos e desejos e principalmente descobrir o que a faria realmente feliz.
O silêncio proporcionado por esse isolamento tem me ajudado a entender várias questões que sempre evitei encarar. Medo, duvidas, falta de tempo, pressão, apoio e interferência de amigos, sempre me fizeram fechar os olhos ou ignorar muitas coisas que aconteciam ao meu redor. É mais fácil fingir esquecer, do que encarar. É cômodo atribuir a responsabilidade a outras pessoas e assim se isentar da culpa. Aparentemente dói menos fechar os olhos para o que está nítido em nossa frente.
Não estou me responsabilizando por tudo que vem ocorrendo em minha vida e nem isentando meus familiares. Só tento jogar um pouco mais de luz sobre esse terreno tão obscuro. Tento me ver como um observador e não mais como o personagem central. É impressionante como uma simples mudança no ângulo na lente te faz perceber as coisas com outra dimensão, te trazem um novo sentido para aquilo que antes parecia estático.
Sei dos riscos que corro com tal processo, como os de aumentar ou diminuir a relevância de um acontecimento ou também de absolver ou condenar a mim ou terceiros por fatos já ocorridos, mas sigo com cautela, pois não busco algozes, mas sim o entendimento.
Seguindo com esse resgate, me deparei com um fragmento que para mim é desconhecido. Por mais que tente não consigo superar os bloqueios impostos por minha mente em relação ao acidente que nos privou da convivência com o Ale.
Na semana passada busquei tão intensamente levar um pouco de luz sobre esse fato que decidi que voltaria a Tabatinga para quem sabe lá descortinar esse grande apagão.
No início temi não ser capaz e recorri a Gi pedindo que me fizesse companhia, mas devido o aniversario de sua irmã não pode me ajudar. Pensei em pedir socorro ao Chris, mas esse continua a me ignorar. E assim não tive outra saída a não ser seguir sozinho.
Sai de casa na sexta-feira pela manhã e assim que peguei a estrada me coloquei em alerta achando que ao passar pelo local do acidente todas as recordações voltariam a minha mente, mas me decepcionei em descobrir que o bloqueio foi tão grande que em duvida identifique uns quatro possíveis locais onde poderiam ter realmente ocorrido à batida. Baseado no que me foi relado pelos amigos que estavam presentes, tentei remontar as cenas, mas foram tantas incertezas que acabei chegando à pousada sem ter avançado um único passo.
Cheguei a Tabatinga por volta das 11 horas e com a vantagem de estar fora de temporada não tive nenhum problema em conseguir um quarto. Joguei as coisas dentro do armário e tomei uma ducha para tirar a poeira da estrada.
Sai para almoçar num restaurante próximo a pousada e enquanto comia recordei da ultima vez que estive ali com o Ale e nossos amigos. Foi em janeiro desse ano e estamos todos na casa da minha amiga Lú. Havíamos descido a serra pouco depois do réveillon e ficamos lá pouco mais de uma semana. Alem de nós dois estavam a Gi que na época estava solteira, o Carlos ex da Lú e mais dois primos dela. O Ale desceu na quarta-feira à noite e ficou conosco até o domingo, dia de nosso retorno e do acidente.
A principio pensei em afastar essas lembranças, mas então lembrei que esse fora motivo pelo qual retornei a Tabatinga e sem mais receios deixei me guiar pelas primeiras lembranças.
Após o almoço caminhei até a praia e fiquei ali sentado desenhando a paisagem em um pequeno bloco que sempre carrego comigo para sempre registrar em palavras ou desenhos os bons e maus momentos. As horas passaram rapidamente e logo tive que me recolher para evitar ser devorado pelos borrachudos. Tomei mais um banho e me deitei dessa vez dedicando meu tempo a leitura.
Não imaginei que eu estivesse tão cansado, mas fato é que acordei no sábado já próximo ao meio dia. Como estava morrendo de fome resolvi voltar ao restaurante e logo após peguei a trilha para a praia das tartarugas. É uma trilha curta e a única dificuldade foi desviar do lamaçal que se tornou o lugar após sucessivas chuvas. Não chega a ser um obstáculo, mas mesmo que o fosse, nada nem ninguém me impediria de rever o lugar onde nos amamos pela ultima vez.
Procurei pela mesma arvore onde em baixo me sentei colando minhas costas contra seu tronco e tendo as costas do Ale amparadas em meu peito. Em minha mente busquei pela sua voz e fui recordando os nossos sonhos, desejos, fantasias. Elenquei escrevendo na areia tudo aquilo que faríamos juntos esse ano. Nossa viagem, a possibilidade dele trocar o apartamento e vir morar em minha casa, o livro de crônicas que estávamos escrevendo juntos e também recordei do pedido de desquite que ele queria que eu pedisse da minha família, rs.
Ele tinha um jeito todo debochado de se referir a minha família. Não menosprezava meus sentimentos, mas me fazia entender e às vezes até a acreditar que quem mais perdia com esse distanciamento eram eles e não eu. Definitivamente ele sabia reverter minha tristeza, me fazer acreditar, desejar algo além daquilo tudo que me fora negado.
Nesse momento senti que as lagrimas corriam frouxo pelo meu rosto. Não era um pranto de dor, mas de uma saudade gostosa, até mesmo de uma certa alegria por ter um dia me sentido tão amado, desejado, especial. Por ter tido ao meu lado uma pessoa que se descobriu gay por minha causa, mas que tinha mais orgulho disso do que eu que já convivia com essa realidade a mais tempo que ele.
Como a noite já se aproximava, resolvi mergulhar no mar e voltei para a praia principal a nado, evitando ter que passar novamente pelo lamaçal. Ainda antes de voltar para a pousada, passei no mercadinho e comprei uma garrafa de vinho e uns petiscos para me distrair durante a noite.
Acordei bem cedo no domingo voltei à praia para mais um banho de mar. Aquelas águas cristalinas onde é possível enxergar todo o seu corpo mesmo em alto mar me causam uma fascinação que devo ter ficado ali por horas e horas.
Da praia segui para o restaurante e de lá marchei rumo à casa dos pais da Lú. Eu sabia que a casa estaria fechada e que não conseguiria entrar e nem era essa minha intenção. Eu desejava apenas olhar novamente para o local onde convivi com o Ale em seus últimos momentos. Relembrar de nos dois, das palavras, os carinhos.
Fechei os olhos e nos vi a todos fechando a casa e seguindo cada um para seu carro. Lú no carro do seu namorado, seus primos em outro, eu e a Gi no meu e o Ale que tinha descido no meio da semana estava sozinho em seu carro. Me vi segurando seu rosto em minhas mãos e dizendo que eu estaria logo atrás, que ele tomasse cuidado e que fosse para seu apartamento que assim que eu deixasse a Gi na casa dela, voltaria para junto dele. Despedi-me com um longo beijo e um tapa meio sacana em sua bunda. Entramos nos carros e pegamos a estrada. Recordo dele na minha frente guinado o pequeno grupo de carros, de brincarmos pelo espelho do carro e então tudo se apaga, se torna branco e sem sentido. É o momento onde ele bate o carro e eu o perco.
Revivi inúmeras vezes esses momentos em busca de um sinal, de algo que pudesse ter passado despercebido e que indicasse que eu não o veria nunca mais. Sabe aqueles sinais que vemos em livros, filmes, uma intuição, um gesto qualquer que indicasse perigo, alerta, mas acredito que isso não deva ter ocorrido.
Já cansado e bastante emocionado resolvi que era hora de voltar para casa. Retornei a pousada e no finalzinho da tarde e peguei a estrada em direção a Santos. Não sei se foi o cansaço ou a paz de espírito que consegui durante esses dias que esqueci completamente de na volta buscar pelo local do acidente. Só fui me dar conta disso agora enquanto escrevia esse texto.
Reconheço que não encontrei exatamente as lembranças que lá fui buscar, mas voltei com a bagagem repleta de bons momentos que ali vivi, me sentindo muito mais tranqüilo e com o coração mais sereno.