sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Reencontro

Nessa terça-feira tive o privilegio de vivenciar um dos momentos mais emocionantes de minha vida. Um misto de sofrimento e amor, de abandono e aconchego, de total desespero e alegria, algo tão especial que penso carregarei junto de minhas mais belas lembranças para o resto de minha vida.

Cheguei cedo para mais uma aula e na ajuda de uma colega de curso, começamos a preparar o salão para a chegada dos demais colegas. Encarreguei-me de dispor as cadeiras em circulo enquanto a Mari separava os copinhos com água fluidificada que sempre tomamos no final de cada encontro. Preparamos também a iluminação, o volume da musica ambiente e nos sentamos cada um em seu lugar para esperar o restante do grupo.

A Mari é uma jovem senhora na casa dos 40 anos e enquanto aguardávamos os demais ela aproveitou para me contar que tinha entrado para o grupo de distribuição de sopa e que estava muito ansiosa para sua primeira experiência. Que seu marido havia relutado com a idéia dela sair a noite para atender indigentes no centro de São Paulo, mas que com a ajuda de sua cunhada que também freqüenta o Centro Espírita conseguiu convencê-lo de que não corria riscos. Revelei que também tinha muita vontade de fazer parte desse grupo, mas que me faltava coragem de encarar aquelas pessoas tão necessitadas. Não teria forças para lhe entregar um prato de alimento e depois virar as costas. Justifiquei que não estava desmerecendo a nobreza do trabalho de assistência realizado pela casa, mas que eu não conseguiria controlar meus impulsos e não me envolver além do permitido.

Aos poucos nossos colegas foram chegando e se acomodando. O Beto meu melhor amigo entre o grupo como sempre se sentou ao meu lado e começou a se queixar que estava com tanta preguiça que deseja nem mesmo estar ali. Ainda brinquei dizendo que o principal ele já havia feito que fora se arrastasse até o salão de aula, que aproveitasse os poucos minutos que tínhamos antes da aula começar para relaxar e tentar afastar essa má vontade que o cercava. Ele fez uma cara de quem ignorava o que eu acabara de dizer e ambos caímos na risada.

O Beto irônico como sempre percebeu que nosso professor estava já há algum tempo parado do lado de fora da sala conversando com a Lúcia, uma de nossas colegas de curso. Chegou a comentar que pela cara da Lúcia algo não estava bem. Dessa vez fui eu que não lhe dei atenção e comecei a preparar meu material de desenho caso eu sentisse a necessidade de desenhar durante o exercício mediúnico da segunda parte da aula.

Como acontece toda semana nosso professor fez a abertura da aula com uma breve oração de agradecimento ao plano espiritual por mais uma oportunidade de reencontro do grupo e pelo trabalho que iremos realizar.

Assim que foi oficialmente aberto nosso encontro ele junto de seu assistente sentou-se junto a nós completando o circulo. Avisou-nos que não teríamos aula teórica porque precisava dar uns avisos para alguns integrantes e precisava ouvir a opinião de todos.

Segundo ele alguns dos integrantes do grupo conseguiram desenvolver bastante sua mediunidade e estava na hora de se envolverem em novos desafios dentro da casa como as reuniões de assistência espiritual ou de tratamento dependendo é claro da disponibilidade de cada um.

Fiquei muito feliz em saber que meu nome constava nessa lista e que em breve poderei por em pratica tudo o que aprendi durante esses anos de curso. Que poderei ajudar as pessoas que vem até a casa em busca de socorro espiritual. Era tudo o que eu mais desejava desde que comecei a freqüentar o curso de desenvolvimento mediúnico. Sentir-me útil e retribuir a casa por tudo aquilo que recebi durante esses anos que lá freqüento.

Além de mim mais duas pessoas foram selecionadas para tal atividade e em seguida ele começou a questionar a todos sobre as ambições pessoais de cada um dentro da casa. O que gostariam de fazer, em que atividade desejavam trabalhar para que ele pudesse preparar cada um para a tarefa escolhida. A conversa seguiu descontraída ocupando todo o horário destinado a aula teórica.

No segundo período de aula nosso professor pede que a Lúcia coloque sua cadeira no centro do circulo já que faríamos um exercício muito especial e a nossa colega serviria de elo entre o nosso plano e o mundo espiritual. Pediu que ela fizesse exatamente como tinham combinado fora da sala e ela então começou a nos relatar o quanto precisava de nossa ajuda.

Contou-nos que sua cunhada havia falecido há poucos anos e que ela há exatamente seis dias sonhava com ela todas as noites. Que sua presença era tão forte que não conseguia se desligar e que precisava da ajuda de nosso grupo.

Entendemos que como sempre existia muito mais a ser dito, mas como sempre acontece à pessoa que busca auxilio é orientada por nosso professor a transmitir o mínimo de informação ao grupo, para evitar que aja influenciarão.

Permanecemos em silêncio e aos poucos fomos relatando o que víamos. Foi dito que existia uma mulher que só chorava, que estava exausta e em total desespero. O Beto relatou que via uma casa, um quarto escuro e era lá que essa mulher se encontrava. Ele e o Sr. Francisco começaram a nos falar das outras entidades que viam no local, mas nosso professor pediu que nos limitassem somente a tal mulher. Nisso eu conto que ela percebera nossa presença e nos pedia ajuda. Notando que o contato fora feito meu professor disse: Rodrigo se concentra nela e a traga para o circulo.

Fui inundado por um enorme sentimento de dor e sofrimento. Meu corpo parecia queimar em chagas de tanto que latejava. O cansaço era tamanho que pensei que não iria suportar. Já incorporado dei voz a entidade que gritava aos prantos por pedidos de socorro. Que não suportava mais a solidão e abandono. Lamentava por ter sido abandonada por seus familiares que a ignoravam e nem mais a ouviam. Que não sabia o que teria feito a eles para ser tratada dessa forma.

Posso relatar fielmente essas palavras porque sou um médium consciente e tenho controle de meu corpo e mente durante tal processo.

Meu professor se aproximou e começou a conversar com a entidade que usava meu corpo como veiculo par expressar seu desespero. Aos poucos foi lhe conscientizando que ela havia desencarnado e que não deveria mais sentir tanta dor e cansaço. Foi muito difícil, pois ela se recusava aceitar que tinha desencarnado.

Aos poucos nosso professor foi rompendo suas defesas e a fez entender que o conceito de vida é bastante relativo. Que ela continuava viva, só não mais encarnada, que deveria habitar um novo plano e seguir com sua evolução. Nisso ele pede para que ela perceba que outras entidades estavam ali para recebê-la. Pediu a Mari que desse comunicação a entidade que se aproximará e então fomos todos surpreendidos pelo transborde de emoção.

Quem acabara de chegar em socorro era a mãe da mulher que nos pedia ajuda. O reencontro das duas fora muito emocionante. Podemos sentir o amor, o carinho e admiração que existia entre as duas. Algo tão grandioso que penso só quem é mãe pode entender. Eu como filho e tendo a família que tenho, sei nunca ter vivenciado algo assim tão forte.

Nossa enferma fora socorrida não só por sua mãe, mas também por uma tia e uma amiga que vieram em seu encontro. Todas as entidades deram comunicação antes de seguirem unidas para o plano espiritual.

Ao final de nossa reunião, estávamos todos lavados em lagrimas. Felizes por termos sido o veiculo para algo tão grandioso como o reencontro dessas criaturas. A Lúcia era a mais emocionada por ter consigo ajudar sua cunhada a se libertar dos laços que a prendiam ao plano terreno.

Por mais que eu queira aqui registrar, será impossível por em palavras o que vivenciamos dentro daquela sala de aula. Sou muito grato a Deus, ao Centro Espírita e ao nosso grupo de estudos pelo enorme presente que recebi. Desejo que em breve, dentro das novas atividades que devo me envolver dentro da casa, possa auxiliar outras entidades da mesma forma que fizemos nessa terça-feira.

Despeço-me desejando que ela possa ser muito feliz junto de seus familiares e que encontre seu caminho rumo a sua evolução espiritual.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

18 Anos

Desde a semana passada que um assunto insiste em povoar meus pensamentos. A principio pensei ser capaz de ignorá-lo ou simplesmente arquivá-lo nessa enorme colcha de retalhos e perde-lo em meio a tantas lembranças. Porem ele se tornou recorrente e se faz presente a todo instante, estando eu envolvido em alguma atividade ou simplesmente desfrutando do ócio.

As revelações feitas por meu primo não me pegaram totalmente de surpresa porque eu sempre imaginei sem ter muita certeza que até determinado período de minha vida ele não me suportava. Tivemos sim uma infância e adolescia bastante conturbada. Quando criança eu o tinha como referencia por ser ele o primo com idade mais próxima a minha já que eu sou o neto caçula e ele três anos mais velho.

Sempre o buscava para juntos brincarmos. Adorava sua determinação e tentava imitá-lo, enfim fazia o que podia para que ele me visse como um amigo. Com o tempo percebi que isso não seria possível e desisti de buscar sua atenção. Criei afinidade com os demais primos já que eu estava um pouco maior e já podia brincar entre eles sem ser tratado como um bebe.

No início da adolescência nossos caminhos voltaram a se cruzar quando fui transferido de colégio indo estudar próximo a casa de minha avó. Minha mãe resolverá voltar a trabalhar e eu então ficava aos cuidados de minha avó que me buscava no colégio. Colégio esse que era o mesmo freqüentado por meu primo.

O ressentimento que ele tinha por mim também se manifestou no colégio e por vezes apenhei, ou tive que sofrer com as piadinhas dele e de seus amigos. Às vezes penso que ninguém passa impune pelo colégio. Sejam os fortões ou os fracotes, todos de alguma forma enfrentamos situações que irão nos acompanhar para o resto de nossas vidas.

Quando assumi minha homossexualidade enfrentei vários problemas dentro de minha família. Todos eles sempre às claras como ofensas, xingamentos, isolamentos, enfim vários foram os casos, mas entre eles um se destacou com enorme crueldade.

Aquele era o primeiro ano que passamos o Natal sem a presença de aminha avó. Ela morrera no inicio do ano e a família ainda muito fragilizada se reuniu na casa de minha tia para tentar comemorar a data preferida de minha avó, o Natal.

Lembro de ter chego cedo à casa de minha tia que me pedira ajuda na decoração do salão. Nessa época eu já enfrentava problemas, mas por ser uma notícia ainda recente, alguns dos familiares não tinham tomado partido e com isso consegui transitar mais tranqüilo entre eles.

Num determinado momento da festa desci a garagem para pegar um novo maço de cigarros e encontrei dentro de meu carro uma caixa de presentes. Sem muito pensar abri a caixa sem demora, afinal que não quer ganhar presentes no Natal. Ainda pensei que poderia ser de algum parente que preferiu fazer isso escondido por não ter coragem de manifestar seu carinho em publico e sem demora rasquei o embrulho e abri a caixa de papel.

Dentro da caixa encontro Uma escova de cabelos, Um estojo de maquiagem e um Sutiã. Junto a eles tinha um pequeno bilhete não identificado que dizia o seguinte:

Que esses presentes lhe tragam muita sorte nesse novo ano que se inicia e que você possa usufruí-los sendo você um travesti, cabeleireiro ou maquiador.

Mesmo suspeitando que o presente de grego tivesse vindo das mãos do Dennys ou de seu irmão Fahrid, nunca tive como comprovar até que na semana passada durante a conversa que tivemos, consegui a confirmação de que o arquiteto do tal plano fora mesmo o Dennys que o executou sozinho, sem a participação de outro integrante.

Desde semana passada que percebo algo de diferente. Sei que meus 18 anos foram a sem sobra de duvida o pior período de minha vida já que no período de 12 meses tive que conviver com o falecimento de minha avó com quem eu tinha uma enorme afinidade, meses depois a rejeição da Deborah e conseqüentemente a revelação de minha opção sexual, o afastamento de toda a família e por final a tentativa de suicídio.

O que volta a minha ótica não é a importância que esse ano teve em minha vida, mas sim as respostas que dele devo tirar. Vou tentar exemplificar tendo o Dennys como modelo. Por 18 anos ele literalmente me odiou. Nunca tentou me conhecer ou se permitiu se aproximar daquele que segundo ele tinha lhe tomado o titulo de queridinho da família. Do outro lado estão meus pais, tios, primos e demais parentes que pelo mesmo período de 18 anos me amaram incondicionalmente. Fizeram todos meus gostos e vontades e tinham um enorme orgulho do ser humano que eu estava me tornando.

Chega a ser irônico já que tudo se inverte exatamente no mesmo período. Os que me amavam passaram a me odiar e o que me odiava se abriu e se aproximou para tentar compreender um pouco daquela pessoa que ele via arrasada a sua frente.

Hoje penso que já passei pelo pior momento de minha vida e se Deus me der forças jamais o reviverei, afinal não há nada pior do que uma pessoa atentar contra sua própria vida. Vejo que nem a brutalidade desse fato foi capaz amolecer ou levar luz aos corações petrificados de meus familiares. Mas não posso negar que algo de bom aconteceu, pois dali fez brotar essa enorme afinidade, carinho e amor que hoje existe entre eu e meu ex algoz.

Sinto-me cego, até mesmo insano, pois nego a todo o momento aquilo que salta aos olhos. Tento fechá-los, finjo não ver, não ouvir. Tento esquecer mesmo sabendo que a magoa se manifesta em cicatrizes que constantemente estão a sangrar. É uma tentativa covarde de não admitir que para eles simplesmente deixei de existir.

Por mais que eu tenha total conhecimento desse fato é difícil admitir. Encaro isso como o sepultamento de uma pessoa que ainda vive e respira, que se expressa e que ama. Não consigo conviver com essa idéia de que para eles simplesmente morri.

Sei que devo seguir em frente e não mais me contentar com migalhas. Que devo buscar o amor na companhia de outras pessoas e não mais esperar por um chamado de minha família. Sei ser uma pessoa agradável, com bons e amigos que me amam. Sei ter o dever se ser feliz. Isso é lógico, é meu lado prático, racional falando. Pena que também existe um lado emocional, sentimental e esse é meu maior adversário, pois é ele que me prende e me faz sofrer.

Percebo que meu maior adversário não é minha família ou qualquer outra pessoa, mas sim um coração carente que mesmo cansado de tanto sofrer, ainda se prende a um amor que penso jamais voltará a existir.