segunda-feira, 5 de outubro de 2009

18 Anos

Desde a semana passada que um assunto insiste em povoar meus pensamentos. A principio pensei ser capaz de ignorá-lo ou simplesmente arquivá-lo nessa enorme colcha de retalhos e perde-lo em meio a tantas lembranças. Porem ele se tornou recorrente e se faz presente a todo instante, estando eu envolvido em alguma atividade ou simplesmente desfrutando do ócio.

As revelações feitas por meu primo não me pegaram totalmente de surpresa porque eu sempre imaginei sem ter muita certeza que até determinado período de minha vida ele não me suportava. Tivemos sim uma infância e adolescia bastante conturbada. Quando criança eu o tinha como referencia por ser ele o primo com idade mais próxima a minha já que eu sou o neto caçula e ele três anos mais velho.

Sempre o buscava para juntos brincarmos. Adorava sua determinação e tentava imitá-lo, enfim fazia o que podia para que ele me visse como um amigo. Com o tempo percebi que isso não seria possível e desisti de buscar sua atenção. Criei afinidade com os demais primos já que eu estava um pouco maior e já podia brincar entre eles sem ser tratado como um bebe.

No início da adolescência nossos caminhos voltaram a se cruzar quando fui transferido de colégio indo estudar próximo a casa de minha avó. Minha mãe resolverá voltar a trabalhar e eu então ficava aos cuidados de minha avó que me buscava no colégio. Colégio esse que era o mesmo freqüentado por meu primo.

O ressentimento que ele tinha por mim também se manifestou no colégio e por vezes apenhei, ou tive que sofrer com as piadinhas dele e de seus amigos. Às vezes penso que ninguém passa impune pelo colégio. Sejam os fortões ou os fracotes, todos de alguma forma enfrentamos situações que irão nos acompanhar para o resto de nossas vidas.

Quando assumi minha homossexualidade enfrentei vários problemas dentro de minha família. Todos eles sempre às claras como ofensas, xingamentos, isolamentos, enfim vários foram os casos, mas entre eles um se destacou com enorme crueldade.

Aquele era o primeiro ano que passamos o Natal sem a presença de aminha avó. Ela morrera no inicio do ano e a família ainda muito fragilizada se reuniu na casa de minha tia para tentar comemorar a data preferida de minha avó, o Natal.

Lembro de ter chego cedo à casa de minha tia que me pedira ajuda na decoração do salão. Nessa época eu já enfrentava problemas, mas por ser uma notícia ainda recente, alguns dos familiares não tinham tomado partido e com isso consegui transitar mais tranqüilo entre eles.

Num determinado momento da festa desci a garagem para pegar um novo maço de cigarros e encontrei dentro de meu carro uma caixa de presentes. Sem muito pensar abri a caixa sem demora, afinal que não quer ganhar presentes no Natal. Ainda pensei que poderia ser de algum parente que preferiu fazer isso escondido por não ter coragem de manifestar seu carinho em publico e sem demora rasquei o embrulho e abri a caixa de papel.

Dentro da caixa encontro Uma escova de cabelos, Um estojo de maquiagem e um Sutiã. Junto a eles tinha um pequeno bilhete não identificado que dizia o seguinte:

Que esses presentes lhe tragam muita sorte nesse novo ano que se inicia e que você possa usufruí-los sendo você um travesti, cabeleireiro ou maquiador.

Mesmo suspeitando que o presente de grego tivesse vindo das mãos do Dennys ou de seu irmão Fahrid, nunca tive como comprovar até que na semana passada durante a conversa que tivemos, consegui a confirmação de que o arquiteto do tal plano fora mesmo o Dennys que o executou sozinho, sem a participação de outro integrante.

Desde semana passada que percebo algo de diferente. Sei que meus 18 anos foram a sem sobra de duvida o pior período de minha vida já que no período de 12 meses tive que conviver com o falecimento de minha avó com quem eu tinha uma enorme afinidade, meses depois a rejeição da Deborah e conseqüentemente a revelação de minha opção sexual, o afastamento de toda a família e por final a tentativa de suicídio.

O que volta a minha ótica não é a importância que esse ano teve em minha vida, mas sim as respostas que dele devo tirar. Vou tentar exemplificar tendo o Dennys como modelo. Por 18 anos ele literalmente me odiou. Nunca tentou me conhecer ou se permitiu se aproximar daquele que segundo ele tinha lhe tomado o titulo de queridinho da família. Do outro lado estão meus pais, tios, primos e demais parentes que pelo mesmo período de 18 anos me amaram incondicionalmente. Fizeram todos meus gostos e vontades e tinham um enorme orgulho do ser humano que eu estava me tornando.

Chega a ser irônico já que tudo se inverte exatamente no mesmo período. Os que me amavam passaram a me odiar e o que me odiava se abriu e se aproximou para tentar compreender um pouco daquela pessoa que ele via arrasada a sua frente.

Hoje penso que já passei pelo pior momento de minha vida e se Deus me der forças jamais o reviverei, afinal não há nada pior do que uma pessoa atentar contra sua própria vida. Vejo que nem a brutalidade desse fato foi capaz amolecer ou levar luz aos corações petrificados de meus familiares. Mas não posso negar que algo de bom aconteceu, pois dali fez brotar essa enorme afinidade, carinho e amor que hoje existe entre eu e meu ex algoz.

Sinto-me cego, até mesmo insano, pois nego a todo o momento aquilo que salta aos olhos. Tento fechá-los, finjo não ver, não ouvir. Tento esquecer mesmo sabendo que a magoa se manifesta em cicatrizes que constantemente estão a sangrar. É uma tentativa covarde de não admitir que para eles simplesmente deixei de existir.

Por mais que eu tenha total conhecimento desse fato é difícil admitir. Encaro isso como o sepultamento de uma pessoa que ainda vive e respira, que se expressa e que ama. Não consigo conviver com essa idéia de que para eles simplesmente morri.

Sei que devo seguir em frente e não mais me contentar com migalhas. Que devo buscar o amor na companhia de outras pessoas e não mais esperar por um chamado de minha família. Sei ser uma pessoa agradável, com bons e amigos que me amam. Sei ter o dever se ser feliz. Isso é lógico, é meu lado prático, racional falando. Pena que também existe um lado emocional, sentimental e esse é meu maior adversário, pois é ele que me prende e me faz sofrer.

Percebo que meu maior adversário não é minha família ou qualquer outra pessoa, mas sim um coração carente que mesmo cansado de tanto sofrer, ainda se prende a um amor que penso jamais voltará a existir.


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