quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Vinte e Seis

Tem horas que nos esquecemos de agradecer e só nos lembramos de reclamar.

Ontem, dia de meu aniversário, passei o dia tentando afastar esse tipo de pensamento, de não cobrar, de não esperar, de não contar com algo que intimamente eu sabia que não iria se realizar.


Fui despertado por volta das oito horas da manhã pela Gi que me ligava para me dar os parabéns. Aproveitei para mais uma vez me desculpar pelo incidente que causei no final de semana e ela aproveitou para desabafar que eu na verdade só antecipei uma conversa que ela a algum tempo vem adiando. Que a relação dela com o Fernando não está boa e que acredita ter chego o momento de por um ponto final, já que é perceptível a todos a falta de afinidade que existe entre os dois.

Fiquei um longo tempo ouvindo os desabafos dessa querida amiga e assim que desligamos resolvi levantar da cama e fazer minha caminhada pelo calçadão. O dia estava cinzento, e caia uma leve garoa, tudo em perfeita harmonia com meu estado de espírito.

Enquanto caminhava pela praia recebi os cumprimentos dos meus primos e sócios Dennys e Carol, e da Laura também sócia e quase uma prima. Senti uma vontade enorme de estar ali junto deles, de receber esse carinho pessoalmente. De sentir os abraços, os beijos...

Enquanto voltava para casa lembrei-me de minha avó que dizia que não importa a data, o tamanho da festa ou a quantidade de pessoas, mas um aniversario tem que ser comemorado, festejado nem que seja somente com um bolo, mas que todo aniversariante tem o direito e dever de cortar um bolo e fazer seu pedido. Ali na areia da praia, desejei ter um bolo mágico que me permitisse trazer de volta minha sempre doce avó.

Com suas palavras ecoando em minha mente, fui até o supermercado em busca de um bolo para comemorar mais um ano de vida. Segui até a sessão de padaria e escolhi um belo bolo de chocolate. Aproveitei para pegar mais algumas coisas para o almoço e jantar e enquanto caminhava dentro do supermercado emburrando o carrinho fiquei imaginando aquele bolo sendo partido por uma família ou um grupo de amigos. Imaginei todos cantando parabéns, os risos e o bolo sendo cortado.

Notei que esse não era o meu bolo, que eu não tinha com que dividi-lo com quem saboreá-lo. Voltei para a sessão de padaria e deixei o belo bolo no mesmo lugar de onde o retirei e para não contrariar os pensamentos de minha avó, peguei na prateleira um bolo Pullman que combinava muito mais com a grandeza da festa e a importância da data.

Depois de uma longa ducha resolvi preparar meu almoço. Pensei em algo especial, que eu gostaria de comer, mas tudo que desejei era por de mais trabalhoso e impossível de ser preparado para uma só pessoa. Desisti também de meu almoço de aniversario e me contentei com um sanduíche de atum.

Os amigos foram ligando, um após outro. Piadinhas foram feitas, desejos de paz, saúde, felicidade, amor, prosperidade foram encaminhados e por um momento me fizeram me sentir querido, amado. Ao termino de cada ligação agradecia mentalmente o carinho recebido e pedia a Deus que os dessem em dobro tudo aquilo que acabaram de me desejar.

A tarde deu lugar a noite e sem apetite mordisquei o restante dos frios que tinham sobrado do final de semana. Abri a primeira garrafa de vinho e brindei a conquista de mais um ano.

O telefone por outras vezes voltou a tocar e a cada nova ligação meu coração ingênuo e sonhador se colocava em alerta imaginando que dessa vez poderiam ser os meus pais do outro lado da linha me ligando para me cumprimentar.

Alem dos telefonemas recebi também belas mensagens por e-mail e também aqui nesse mesmo Blog. Foi em um desses momentos onde consultava minha caixa de mensagens que vejo por volta das 10:00 da noite uma nova mensagem com o nome de meu pai. Parecendo um menino com um largo sorriso abri sem demora sua mensagem que dizia o seguinte:

Parabéns.

Seja feliz.


O sorriso deu lugar ao pranto e desejei nunca ter recebido tal mensagem. Preferia me iludir imaginado que meus pais se esqueceram da data, que por distração deixaram passar. Qualquer mentira seria melhor, mais confortante do que aquelas secas e artificiais palavras. Indaguei como ele pode esperar o dia inteiro para me dizer somente aquilo. Penso que seria mais verdadeiro se ele tivesse feito como minha mãe que por mais um ano me ignorou.

Tentei não chorar, não deixar que destruíssem o pouco que tinha nessa data, mas o ódio que sentia de mim e a decepção foram tão grandes que abri uma nova garrafa de vinho e mesmo com o vento gelado que sobrava lá fora, resolvi sentar na varanda e sorver diretamente do gargalo. todo o conteudo daquela garrafa. O desejo de esquecer, de me anestesiar era tão grande que não tinha tempo nem de encher um copo, virava gole após gole desejando que todo deixasse de fazer sentido.

Pensava em como estava comemorando em grande estilo o meu aniversario e foi então que me lembrei do bolo. Como poderia me esquecer do bolo.

Sobre o balcão da cozinha cortei o primeiro pedaço fazendo meu pedido. Ao contrario dos outros anos que sempre pedi ser aceito e perdoado de um crime que nem mesmo cometi. Resolvi mudar o pedido e desejei não mais sentir, não mais me importar, não mais lembrar do que foi e nem do que poderia ter sido. Desejei morrer e renascer mais forte, indiferente e sem coração. Desejei ser o monstro que há anos tentam me fazer acreditar ser. Desejei esquecer de tudo e principalmente de mim.

Sem ter para quem entregar a primeira fatia de bolo, resolvi eu mesmo saboreá-lo e assim devorei não só a primeira e a segunda fatia, mas todo aquele maldito bolo desejando a cada mordida acordar desse pesadelo.

Moralmente ferido joguei-me no sofá da sala esquecendo de agradecer o carinho recebido dos amigos para somente lamentar a falta de atenção por parte da minha família. E foi assim que adormeci sentindo na boca o gosto amargo de fel dos meus 26 anos de vida.


Um comentário:

  1. Ah meu querido amigo,fiquei tão triste com as palavras que acabei de ler,me senti péssima em saber que seu aniversário foi tão solitário.querido gostaria de ter o poder de me teletransportar para estar ai ao seu lado para te dar um grande abraço e não deixar que você ficasse tão só nesse dia que deveria ser de festa;gostaria de estar ai contigo te fazendo rir e comer bolo pullman com você,te preparar um almoço gostoso e conversar durante horas só pra te ver feliz ,mesmo que por um dia.Querido sei que impossivel não ficar triste com sua familia(principalmente seus pais) mas acredite existem pessoas que gostam muito de vc,e é nessas pessoas que vc tem que pensar e saber que vc é querido demais...pelo menos por mim vc é muito querido,sem nem ao menos te conhecer,penso sempre em você,me preocupo se vc está bem se está em paz se está feliz.querido deixo um grande beijo e um abraço muito apertado! Deus te abençoe hoje e sempre!

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