sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Vendo Por Outros Olhos

Impelido pelos bons sentimentos conquistados nesse final de semana, decidi nesta terça-feira, que era hora de encarar mais uma ferida que recentemente foi aberta. Há poucos dias fui surpreendido por meu professor que durante nossa aula de desenvolvimento mediúnico, percebeu meu abatimento e pediu ao grupo de alunos que entrassem em sintonia comigo, para que fosse feita uma avaliação e também prestado uma ajuda espiritual.

Como já mencionei aqui nesse Blog, o exercício saiu do controle e meus colegas foram relatando fatos, sentimentos que por anos venho escondendo e enganando a mim mesmo. Desde esse dia me afastei do grupo temendo que um colega mais indiscreto me questionasse sobre alguém assunto que fora revelado.

Chegando ao Centro preparei-me mentalmente para um possível confronto e entrei em nossa sala de aula. Não sei se algo foi combinado entre eles, ou se o tempo agiu em meu favor fazendo com que todos esquecessem o ocorrido. Aliviado pela falta de interesse dos colegas fui me integrando com o grupo e consegui até participar ativamente do exercício final.

Após o termino da aula, decidi não voltar a Santos. Estava com vontade de ver gente amiga, de conversar e de imediato liguei para a Luciana convidando-a para juntos fazermos um lanche na padaria Bela Paulista. A Lú, é minha amiga desde os tempos de infância. Morávamos no mesmo prédio e ela até hoje permanece no mesmo endereço morando com sua mãe e irmãs, prédio esse que continua a ser residência de meus pais.

Para evitar possíveis problemas combinei de apanhar a Lú na esquina de sua casa. Preferi evitar um encontro casual com meus pais que sem saber de minha proximidade poderiam avistar meu carro ali parado e de certo imaginariam que eu estava querendo algo.

A Luciana já me esperava na esquina e então seguimos para a padaria. Resolvemos nos servir no Buffet já que a fome parecia ser ainda maior que à saudade que estávamos um do outro. Aos poucos nos colocando a par dos últimos acontecimentos da vida de cada um. Quase morri de rir quando ela me contou que mais uma vez está sozinha. Esse é o terceiro namorado só esse ano. Como ela mesma disse, curte a parte boa e quando começa a dar defeito passa pra frente e parte para o próximo. Ela que ta certa.

Além de nos conhecer desde a primeira infância, estivemos um ao lado no outro nos momentos mais difíceis de nossas vidas. Há 10 anos eu estava ao seu lado quando o tio Luis seu pai faleceu de câncer. Foi no meu colo que ela chorou e minha mão que segurou durante todo o velório. Lembro de ter dormido em seu quarto quase um mês, pois ela evitava o contato com os demais familiares e a pedido de sua mãe, meu pais permitiram que eu ficasse alguns dias ao lado dela.

Quando me assumi gay para minha família foi na casa da Lú que busquei socorro após receber o primeiro tapa na cara de minha mãe e ser educadamente convidado a me retirar por meu pai. Foi a Lú e a tia Beth que enxugaram minhas lagrimas e me recolheram na primeira semana já que naquele momento eu não sabia para onde ir.

Mas nossa vida não é costurada somente pela dor, temos ótimos momentos juntos e alguns chegam a ser até constrangedores como a vez que fomos levados ao Play Center pelo tio Luis e sem pensar nas conseqüências resolvemos no final da tarde pegar um taxi e ir para o Cinema. Claro que fizemos isso sem avisar nossos pais e perdemos a hora dentro da sala de cinema. Mais tarde quando novamente pegamos um taxi para voltar para casa encontramos duas viaturas de policia paradas na frente de nosso prédio, já que nossos pais imaginavam que tínhamos sido seqüestrados, rs.

Essa foi só uma das muitas que aprontamos rs.

Aproveitei e contei a ela que eu tinha voltado a Tabatinga. Relatei em detalhes tudo o que lá fiz e as lembranças que pude reativar.

Ela disse que eu deveria tela chamado. Que há tempos ela esperava por isso, mas nunca falou diretamente para não me pressionar. Que conhecendo meu temperamento imaginava que mais cedo ou mais tarde eu teria que encarar esse obstáculo, mas imaginou que eu a convidaria já que estávamos juntos naquele dia e poderíamos ter ficado em sua casa.

Pensei em explicar meu motivos, mas percebendo nela uma maior abertura resolvi pressioná-la a me relatar novamente como foi o acidente.

Sabendo que esse fato sempre me deprime por além de perder o Ale, ainda não conseguir me recordar de como tudo aconteceu, ela tentou se esquivar, mas percebendo que naquele momento eu estava irredutível, abriu sua caixa de Pandora e libertando assim alguns dos meus demônios.

Como o carro deles estavam um pouco distante não presenciaram a batida. De onde estavam o máximo que puderam perceber foi um grande barulho e em seguida foram obrigados a parar o carro assim como todos os demais motoristas que estavam naquele momento na estrada.

O Carlos seu namorado desceu correndo do carro porque viu logo à frente o meu carro jogado meio que na diagonal no acostamento. Conforme se aproximou notou que não era o meu carro o acidentado e sim era o carro do Ale que tinha entrado praticamente em baixo de um caminhão. Notando a gravidade do acidente, voltou correndo para o seu carro gritando para ela ligar para emergência, pois o Ale estava ferido.

Ela conta que desceram do carro e foram até o meu, mas eu estava paralisado, segurando fortemente o volante em minhas mãos enquanto a Gi me chacoalhava e gritava tentando me despertar do estado de choque que acabara de entrar.

Não posso registrar nesse Blog todo o drama que se seguiu desde a batida até a chegada do resgate que levou uns 15 minutos até chegar ao local. Como foi a retirada do corpo do Ale de dentro do carro que segundo eles e os paramédicos morreu de imediato com o impacto da colisão e nem o que veio a seguir. Por mais que esse Blog seja um registro de tudo que acontece em minha vida, esse fato é pessoal de mais e merece ser guardado somente na memória daqueles que lá estavam e vivenciaram esse drama.

Eu mesmo vivenciando tudo fui abençoado ou amaldiçoado com o dom do esquecimento. Tudo o que sei dessas horas de extrema agonia saiu da boca de duas pessoas, Gi e Juliana que já relataram inúmeras vezes todos os momentos desse dia que foi sem duvida o pior de toda minha vida.

Novamente ouvi todo o relato e como nas vezes anteriores me senti como espectador e não como personagem de uma história que é minha e da pessoa que tanto amei. Tentei imaginar cenas, vozes, diálogos, mas sabendo que esse processo me lavaria novamente a depressão segurei forte nas mãos da Lú e agradeci por ela ter novamente voltado aquele local e revivido de forma tão intensa todos os acontecimentos que determinaram a morte do Ale.

Emocionados nos abraçamos e fomos aos poucos nos recompondo e voltando a assuntos de menor importância.

Passamos lá toda a madrugada e inicio da manhã para então eu devolve-la a sua casa, mas com a promessa de que viria passar o final de semana comigo aqui em Santos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário