domingo, 9 de agosto de 2009

I want to be alone!!!

Tentei, juro que tentei!
Tentei evitar constrangimentos, sentimentos de culpa, desprezo e rejeição.
Tentei me preservar do preconceito velado, de comentários mal intencionados, e principalmente da ignorância.

Decidi que esse ano não passaria o dia dos pais com minha família. Não é segredo que desde que sai de casa perdi não só minha referencia, mas também o amor, companheirismo e tantos outros sentimentos que fazem parte de uma grande família. Família essa que desde a revelação de minha homossexualidade não poupou esforços em dizer o quanto eu era indesejado por todos eles.
Num sentimento de auto preservação, decidi entregar o presente do meu pai em seu apartamento na tarde de sábado, e assim evitar o já tradicional almoço na casa da minha tia cercado por todos os tios, primos e agregados.
Passei toda a manhã de sábado em busca de um novo Arguile com quatro mangueiras para presentear meu pai. Esforcei-me para conseguir aquilo que julguei ser o presente perfeito. Grande, imponente e muito bonito assim como imagino deva ser a relação entre pai e filho.
Segui em direção ao apartamento dos meus pais para entregar o presente e quem sabe convidá-los para jantar comigo. Sei que estava sonhando alto, mas ultimamente essa é a única forma que consigo me aproximar de minha família, em sonhos.
Cheguei à portaria e o Sr. Eduardo, porteiro que trabalha a muitos anos no prédio se levantou e veio me abraçar assim que me viu entrar. Por sorte eu não havia me esquecido dele que sempre foi uma pessoa encantadora e acompanhou parte da minha adolescência e vida adulta. Comprei para o Seu Dudu, (como é chamado por todos no prédio), uma bela carteira de couro marrom e também um novo jogo de dominó já que esse passa-tempo é sua maior paixão. Ele recebeu os presentes com tanta emoção que eu também me emocionei e desejei de todo coração que o mesmo viesse a acontecer com meu pai.
Seu Dudu me informou que meu pai tinha acabado de sair de carro, mas que minha mãe estava em casa e eu poderia subir. Conhecendo minha mãe, preferi pedir ao Seu Dudu que avisasse minha mãe de que eu estava lá na portaria e se poderia subir. Assim que desligou o interfone Seu Dudu me informou que minha mãe estava de saída e pediu para eu retornar mais tarde e que ligasse antes para confirmar se meu pai já estaria em casa. Seu Dudu ficou mais constrangido em me dar a informação do que eu em recebê-la. Tentei fazer cara de que não tinha me importado e pedi para ele me arrumar uma caneta e uma folha de papel.
Sentei-me no sofá da recepção e escrevi um bilhete para meu pai dizendo que o amava muito. Que tinha ciência de não ser o filho que ele sempre desejou, ainda mais por ser seu único filho, mas que sempre senti sua falta, que precisava muito dele em minha vida e expliquei o significado que eu havia dado aquele presente, que para mim simbolizava o que poderia ser nossa relação dali para frente. Terminei pedindo que se possível ele me convidasse um dia para fumar daquele Arguile ao lado dele, que seria muito especial para mim. Dobrei o bilhete e coloquei junto à caixa. Seu Dudu entendendo a importância me arrumou um pedaço de fita adesiva e juntos fixamos aquelas palavras junto ao embrulho. Despedi-me do Seu Dudu novamente com um forte abraço e voltei para casa.
Pensei que as emoções trazidas por essa data já tivessem se acabado, até guardei um fundo de esperança de que meu pai fosse me ligar agradecendo o presente assim que chegasse em casa, mas quem me ligou foi minha tia para me convocar para o almoço na casa dela seguindo então a tradição que e rigorosamente cumprida desde antes de eu nascer.
Tentei me desvencilhar do convite, pois sabia que na verdade ninguém me queria ali, ela me ligava mesmo por obrigação e não porque desejasse realmente minha presença. Aleguei que já tinha entregado o presente do meu pai e tinha assumido compromisso para o domingo. Como já é de costume ela não me deu ouvidos e disse que eu não fosse mal educado e a deixasse explicar os motivos da festa desse ano.
Ela me contou que a doença de meu tio havia voltado e que ele em breve começaria novamente com o tratamento. Que eles estavam muito abalados e precisavam da presença de todos para mostrar ao meu tio que ele tem o apoio de todos nós. Alem disso meu avô completaria esse ano 90 anos de idade e o almoço do domingo seria em homenagem a ele. Que ela e minha mãe tinham feito um filme com fotos e pedaços de alguns vídeos antigos e que toda família deveria estar lá para homenagear a memória do meu avô. Depois de ouvir tudo isso não pude mais negar minha presença.
Mais tarde perguntei para a Carol, minha prima que mora comigo o porquê dela não ter me contado de todo aquilo e ela disse que tava atordoada com a doença do meu tio e acabou esquecendo. Perguntei se iríamos juntos para a casa da mãe dela, mas essa disse que antes iria à casa do namorado para entregar o presente do sogro.
Hoje acordei cedo, na verdade confesso que não dormi direito com receio do que teria pela frente. Um misto de medo com esperança de que alguma coisa boa pudesse sair do anúncio da volta da doença do meu tio. Quem sabe a gravidade da situação amenizasse os ânimos sempre exaltados e o dia terminasse exatamente como minha tia havia planejado.
Procurei chegar um pouco atrasado e assim já os encontrar mais relaxados, entretidos em alguma conversa ou atividade e assim pega-los desarmados. Sei que não seria bem recebido por todos, mas imaginei que poderia ser mais um entre eles.
Fui logo ao encontro de meu pai para lhe dar um abraço e desejar um feliz dia dos pais. Ele estava sentado sozinho na sala e se levantou para me abraçar. O beijei no rosto e perguntei se estava bem. Que ele estava mais bonito, mais magro e ele consentiu com a cabeça. Perguntei o que ele tinha achado do presente, se tinha gostado e ele me respondeu que era um belo presente. Fiquei ali parado olhando para ele, esperando que mencionasse o cartão, que dissesse alguma coisa, mas o silêncio se fez presente e percebi que aquele era o sinal para eu me afastar. Virei em direção oposta e notei surgir à primeira lagrima em meu rosto. A removi antes que alguém pudesse notar e continuei a cumprimentar os demais.
Fui até a cozinha dar oi a minha mãe e também as minhas tias que estavam terminando com o almoço. Pelo aroma e quantidade de panelas pude ver que era mais uma das festas onde quase toda culinária Árabe era servida. Recebi um forte abraço de minha tia e em contra partida um beijo gélido de minha mãe. Comentei que o cheiro estava maravilhoso e que deixaria minha restrição à carne de lado e hoje devoraria um prato daqueles charutos de folhas de uva, mas minhas palavras pouco foram ouvidas e notei que ali também não era meu lugar.
Sai em busca do meu tio, pai da Carol e o dono da casa para lhe cumprimentar e entregar o seu presente. Ouvi o barulho no salão de jogos e imaginei que ele estive jogando sinuca com os demais, mas quando fui passar pela porta fui atropelado pelo meu tio mais velho que ainda teve a ousadia de me mandar olhar para frente. Não perdeu seu precioso tempo comigo e eu na verdade preferi assim já que ele é a pessoa que menos me suporta em toda a família.
Lá estavam meus primos e os cumprimentei um a um. O Dennys, meu primo com quem tenho mais afinidade e que também trabalha comigo estava lá jogando sinuca e perguntei se o Fahrid, seu irmão mais velho passaria o almoço na casa do sogro, mas ele respondeu que a o irmão já estava a caminho. Essa notícia me fez gelar o estomago e passei a me preparar para mais um duelo. Acenei com a cabeça e perguntei por meu tio Pedro, que eu o estava procurando e ainda não tinha encontrado. Dennys me informou que ele estava no jardim abastecendo o bar junto com o Fernando nosso primo.
Segui até o jardim e lá encontrei meu tio. Chamei-o pelo nome e ele virou em minha direção. Me aproximei querendo lhe dar um abraço e ele como sempre estendeu sua mão. Falei que já estava sabendo de tudo e estava ali para mostrar que ele podia contar com meu apoio e que tudo daria certo. Ele agradeceu de forma bem seca e eu emocionado com a situação de meu tio perguntei se poderia lhe dar um abraço. Ele me respondeu que se eu fizesse mesmo questão ele não poderia negar, mas pela expressão no seu rosto mudei de idéia e lhe estendi o braço para entregar o presente que eu havia comprado. Ele o pegou da minha mão e jogou em cima de uma cadeira que estava próxima. Me pediu para dar licença que ele tinha mais o que fazer, que logo todos estariam ali para comer e as bebidas não estavam devidamente geladas.
Sai dali acompanhado por uma nova lagrima que surgia num rosto que não conseguia mais sustentar a mascara de que tudo estava maravilhosamente bem.
Sem saber direito onde ficar, voltei para a cozinha para falar com minha tia e saber mais detalhes da doença do meu tio, mas percebi ser impossível conseguir sua atenção com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo. Voltei para o jardim, peguei uma taça de vinho e fiquei ali sentado esperando alguém me chamar para alguma coisa.
Tal convite não aconteceu e logo todos estavam sentando nas mesas que estavam dispostas pelo jardim. Uma a uma foram sendo ocupadas e eu continuava ali sozinho em minha mesa. O Dennys percebendo a situação veio em meu socorro acompanhado de sua namorada. Agradeci, mas disse que eles não deviam se incomodar, que eu logo partiria e só estava à espera da homenagem preparada para o vovô. Para minha alegria eles resolveram ignorar meu discurso e sentaram juntos ao meu lado.
O almoço começou a ser servido justamente na hora em que o Fahrid chegou com seus filhos. Me mantive bem distante e imaginei que não teria problema, mas na primeira oportunidade fui surpreendido por seu filho que se não me engano tem quatro anos de idade que veio até mim e disse:
Vai embora sua bicha!
Dito isso voltou correndo todo feliz para o colo do Fahrid que o aguardava.
Eu não pude acreditar no tamanho da covardia que tinha acabado de presenciar. O Fahrid usara seu filho que na sua inocência nem sabia o que estava falando, para me atacar dizendo aquilo que ele mesmo não tinha coragem.
O Dennys deu um soco na mesa e disse que iria falar com o irmão, que isso já tinha passado dos limites, mas eu pedi para ele não se levantar, que por pior que fosse a situação o Fahrid estava certo e eu já estava me retirando. Levantei rapidamente para o Dennys não ver que meus olhos pela terceira vez se enchiam de lagrimas.
Sai sem poder provar dos charutos que momentos antes encheram minha boca d’água. Sai sem me despedir de ninguém, imaginando que na verdade ninguém perceberia que eu não estava mais ali. E sai sem ver o vídeo preparado para homenagear meu avô me questionando se o meu avô me desejaria ali.
Fechei a porta do carro e então pude desabar, deixei correr todas as lagrimas que meu organismo foi capaz de produzir. Só tive forças para voltar para casa e jogar umas mudas de roupa dentro da mala, pegar também meu note, uma garrafa de vinho e voltei novamente para a rua só que agora em direção ao apartamento de Santos.
Não tenho condições de ver e nem falar com ninguém. Pretendo me exilar nesse apartamento e só voltar a São Paulo quando meus pensamentos começarem a fazer algum sentido. Quero poder chorar sem ser interrompido, quero poder questionar sem ter que ouvir conselhos ou palavras de conforto, quero poder beber todo o vinho que meu corpo puder suportar.
E nesse momento o que mais quero é ficar sozinho, ainda mais sozinho do que sempre estive.


Um comentário:

  1. Meu amor fala comigo atender esse tel
    Eu reli isso aqui algumas vezes e te conheço sei que ta escondendo alguma coisa
    Por favor Di to pedindo para falar comigo
    Vv nao ta sozinho anjo
    Te amo Gi

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