quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Perdido em Lembranças

Confesso que não está sendo fácil esse isolamento que me impôs, mas sei não ter condições emocionais de estar na presença de conhecidos. Sei não ter estrutura para receber criticas e nem tão pouco conforto por isso aqui permaneço.

Hoje tive a nítida impressão de ter visto o Ale na porta da varanda. Ontem me senti sufocado aqui dentro desse apartamento e resolvi deitar no sofá da varanda. Peguei minha inseparável garrafa de vinho, meu maço de cigarros e um cobertor e fiquei ali deitado olhando para o mar, ouvindo o barulho das ondas.

Me distrai pensando nas pessoas que passavam dentro do seus carros e até mesmo com os pedestres, todas indo para algum lugar, ver ou estar com alguém. Por vários momentos também desejei ter para onde ir.

Meu apartamento fica no terceiro andar e de frente para o mar, isso me permite ouvir com clareza o que falam aqueles que passam pelo pátio de entrada do prédio. Por um longo momento me vi entretido no namoro de dois jovens que estavam sentados no banco do jardim. Não me recordo do conteúdo da conversa e sim do carinho entre eles, a forma como se beijavam, se abraçavam e eu ali poucos metros a cima em silencio só a invejar o belo casal.

Acredito que a soma de vários fatores como a paz que senti naquele local, o barulho do mar, o aconchego do sofá e do cobertor e sem deixar de citar o torpor provocado pelo vinho, acabei por adormecer passando ali toda a noite e só despertando pela claridade do novo dia que insistia em se fazer notar.

Quando despertado pela claridade percebi uma forma estranha bem ao meu lado, assim que virei o rosto percebi se tratar do vulto do Ale ali parado com o rosto muito sério só a me vigiar. Dei um salto no sofá e chamei pelo seu nome, mas a imagem se apagou e eu fiquei a imaginar se ainda dormia e sonhava ou já estava realmente acordado.

Desde seu falecimento que peço ao plano espiritual por uma oportunidade como essa, de estar junto dele mais uma vez. De poder vê-lo e quem saber até ouvi-lo. O desejo é tão forte que sempre disse aceitar que esse encontro se desse até mesmo durante um sonho, porem até hoje nunca pude conquistar tal graça.

Ainda não tive entendimento sobre o que ocorreu de fato. Estou acordado desde então buscando alguma resposta para algo que talvez não tenha explicação.

Tento reavivar minha memória na intenção de quem sabe me lembrar melhor do acidente. Refaço cada km de nossa volta de Tabatinga para São Paulo. Vejo com clareza o carro dele sempre na frente do cortejo de quatro carros. Eu o seguia com bastante proximidade e chegamos a brincar em alguns momentos passando sinas pelo espelho retrovisor. Tudo parece tão nítido e de repente se apaga. Não me lembro da colisão e nem como parei meu carro. Não lembro de vê-lo ser retirado de dentro do carro já sem vida e nem do que veio depois. Só volto a ter lembranças já do seu velório onde fui impedido de entrar e expressar minha dor e poder me despedir devido ao fato de na sua família ninguém alem da irmã saber sobre sua homossexualidade e que era eu seu companheiro.

Fiquei durante todo o tempo no lado esterno do prédio onde acontecia o rito e na única vez que tentei me aproximar, fui impedido por um olhar em fúria de uma irmã que me responsabilizava pelo ocorrido. Desde janeiro desse ano que busco por pedaços de minha memória que foram arrancados com a força da perda da pessoa que durante dois anos pude amar e ser amado.

Essa estranha aparição reavivou dota a dor da saudade que vinha sufocando dentro de meu peito. Busquei momentos especiais que tivemos juntos durante esse tão curto período de tempos que convivemos juntos. Parece que escuto ele me contar da primeira vez que me viu e que segundo ele se sentiu diferente, pois era a primeira vez que se sentia atraído por um homem. Ele sempre ria quando me contava essa história porque alegava que ali se perdeu.

Era uma pequena festa na casa da amiga da Gika que é minha amiga e me levou arrastado porque estava sozinha e queria companhia. Para complicar o Ale estava acompanhado da namorada e eu mesmo nem o notei.

Pouco menos de um mês por intermédio dessas mesmas amigas acabamos nos encontrando num barzinho. Desse encontro eu me lembro porque nos falamos e o achei gatinho, mas o fato de estar com namorada me fez considerá-lo hetero.

Somente tivemos um entendimento no terceiro encontro que ocorreu no Boliche do shopping Center Norte onde ele chegou perto de mim e disse sem muito tato que percebia que eu o olhava e ele queria saber o que eu desejava. Eu que sempre fui muito direto confirmei que o olhava sim, mas que o respeitava por ser hetero e estar com sua namorada. Dito isso aquela cara de sério se desmontou e ele confessou que também me olhava, mas não sabia como me abordar, que passou um bom tempo criando coragem para poder se aproximar. Trocamos telefones e já na mesma noite ele me ligou para saber se eu tinha chegado bem em casa.

Daí para frente às coisas foram acontecendo naturalmente. Ele se separou da namorada e só então saímos dos encontros onde só conversamos para assumir pelo menos para os amigos mais próximos a nossa relação.

Fico feliz de só ter bons momentos para me recordar já que nunca tivemos uma briga. Às vezes até discutíamos por pequenas bobagens, mas nada alem disso. Éramos dois homens independentes, seguros de sua sexualidade com um único compromisso, sermos felizes.

Hoje busquei entender o porquê dessa morte tão prematura. Qual a razão para uma pessoa entrar dessa forma na sua vida e em pouco tempo se mostrar de tamanha importância que você chega a pensar que ela sempre esteve ali ao seu lado desde sua doce infância.

Desejei tanto poder contar com o ombro dele para me socorrer como sempre fez nas vezes que tive que suportar o preconceito e desaforos de minha família. Ele conseguia me entender sem que fosse necessário eu me queixar. Me dava forças para enfrentar a ausência dos meus pais e me ajuda a revidar as ofensas que eu ouvia dos meus primos. Fazia-me entender que a distancia imposta por minha família só me faria bem, pois me afastava de pessoas pequenas e preconceituosas.

Hoje tentei por inúmeras vezes repetir essas palavras para mim mesmo, mas não fui capaz de me convencer.

No momento sigo com minha clausura regada a vinho, cigarros e pão de queijo.

Estão servidos?


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