quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Portal para o passado.

Desde a tarde de domingo que sai da casa de minha tia entrando no carro e me lançando em fuga rumo ao apartamento de Santos que venho mantendo um contato diário com o meu passado. Estou tendo tempo para revisitar vários momentos de minha vida e tentar entende-los de outra forma, buscando quem sabe levar um esclarecimento para um fato que na época não tinha a maturidade suficiente para compreensão.

É uma tarefa difícil e dolorosa porque quando você abre as portas que selam o seu passado, perde o controle do que dali pode sair e se vê frente a demônios que durante anos tentou sepultar.

Hoje pela primeira vez liguei meu celular para retirar os recados que os amigos vinham deixando desde domingo. Fui ouvindo com atenção cada palavra deixada por todos vocês e puder sentir mesmo a distancia o carinho e o ombro amigo de cada um.

Um recado em especial me chamou a atenção e assim que terminei de ouvi-lo senti brotar dentro do meu peito o sentimento de esperança que tanto desejei. Era minha mãe me dizendo que precisava falar comigo com urgência. Imaginei que ela estivesse preocupada com o meu sumiço e falta de contato até com a Carol e o Dennys meus primos com quem trabalho e tenho ótima relação de amizade. Sem espera liguei para ela para tranqüilizá-la e dizer que eu mesmo longe estava bem.

Ela atendeu a ligação sem nem se quer me dar um oi e já perguntando se eu estava feliz em ter arruinado o dia dos pais de toda a família. Que era de se esperar, afinal a família nunca pode contar comigo e que comprometi a celebração em homenagem ao meu avô.

Por ser o único ausente e sem dar um depoimento sobre o homem que ele foi e que também não participei da sessão de fotos que organizaram para registrar toda a família ali reunida. Sem abrir a boca simplesmente desliguei o telefone na cara dela interrompendo o seu discurso.

Sou obrigado a admitir que ainda não entendi o motivo de tudo isso. Não sei a quem ela tenta enganar quando fala em família se está cansada de saber que há tempos eu fui colocado para fora e nunca mais fui tolerado por grande parte dos distintos membros dessa tão unida família. Ela e meu pai foram os primeiros a me virar a cara e fechar portas e janelas para que tudo que dissesse respeito a minha pessoa não pudesse chegar até eles. Na época um jovem de 18 anos perdeu toda sua referencia e teve que reaprender a viver sem ter com quem dividir tantos conflitos que surgiam em sua mente.

Como filho, tento de verdade entender as razões de meus pais para terem me virado as costas afinal eles devem ter alguma.

Quando fazia terapia cheguei a imaginar que a rejeição que sofri pelos meus pais vinha do fato de minha mãe não poder engravidar. Tanto meu pai como minha mãe são os caçulas e imagino o quanto tenha sido difícil para eles conviver com o nascimento e crescimento de cada sobrinho enquanto eles se submetiam a tratamentos e mesmo assim não conseguiam engravidar.

Sempre ouvi de meus pais, avós e até mesmo de meus tios que eu era um presente para eles, um pequeno milagre que Deus deu aos meus pais. Cresci cercado de muito amor, e sendo o neto mais novo fui paparicado e mimado por todos. Entendo que de alguma forma todos tinha planos e expectativas sobre aquele menino que ainda criança foi levado a uma agência de modelos e começou a fazer fotografias para anúncios promocionais. Um menino de coração puro que crescia sem maldade sempre respeitando as tradições familiares e se dedicando a carreira de modelo que começava a deslanchar.

Imagino que meus familiares tivessem orgulho da pessoa que eu estava me tornando, que se sentissem envaidecidos em abrir uma revista e ver o rosto de seu sobrinho ali estampado. Que fizessem planos para meu futuro como o de me casar na catedral ortodoxa e manter mais uma tradição de família. Enfim, gostariam que eu fosse tudo menos aquilo que realmente sou.

Tento me colocar no lugar de cada um deles, principalmente no dos meus pais que tanto desejaram ter um filho. Que juntos enfrentaram todos os problemas de saúde de minha mãe que a impossibilitava de manter uma gestação, que tiveram a coragem para seguir com uma gravidez de alto risco, e no final enfrentar um parto difícil, que devido às várias complicações apresentadas durante minha gestação, fizeram a equipe médica perguntar ao meu pai por quem ele optava dentro da sala de cirurgia porque eles estavam perdendo tanto mãe quanto filho.

Quando penso nisso até consigo em partes entender a decepção por aquele único e tão desejado filho ter nascido com desvio de caráter como eles mesmos costumam dizer. Entendo que estou longe de ser aquilo que desejavam, mas o que é difícil entender é o quanto isso era importante para todos eles, mais importante até que a minha felicidade. De minha parte sei que não faço nada para envergonhá-los. Sou sim bissexual, mas não sou promiscuo e muito menos afeminado. Quem desconhece minha opção sexual dificilmente consegue associar que o homem a sua frente é gay porque não dou pinta e nem saiu por ai anunciando. Sou assumido somente para os familiares e amigos mais próximos por isso não consigo entender o porquê terem tanta vergonha da minha pessoa.

Desde que fui convidado a me retirar de casa que posso contar nos dedos às vezes que estive entre eles e mesmo assim tendo que suportar os olhares de nojo e reprovação de grande parte da família.

Fecho os olhos e busco por luz no meio desse caos que tem sido minha vida desde os meus 18 anos até hoje com meus 25. Tento juntar todos os fragmentos para quem sabe um dia visualizar novamente o retrato daquilo já fui.

Sigo enfrentando os demônios que libertei assim que abri as portas que dão acesso ao meu passado.


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