sábado, 15 de agosto de 2009

Distração

Nesse sábado, sem mais suportar o silêncio das paredes desse apartamento, decidi buscar contato com o mundo exterior. Pensei em descer e andar pelo calçadão, abordar algum infeliz com uma frase estúpida falando sobre o tempo e quem sabe dar a sorte dele ser tão solitário quanto eu a ponto de perder algumas horas conversando comigo.

Pensei também em dar um volta no shopping, dar um mergulho na praia, sair para almoçar em um restaurante legal, ir ao museu... Pensei em tantos roteiros, mas percebi que nenhum deles me daria aquilo que eu realmente buscava. Atenção.

Desanimado com minha constatação resolvi almoçar o resto da pizza de ontem e me atirei novamente no sofá da varanda com o note no colo pensando no que poderia fazer, com quem poderia falar.

Tenho consciência que meus amigos estão tristes comigo por mantê-los distantes, só que nesse momento não tenho estrutura emocional para conversar com quem sabe da minha vida, de meus problemas. Não suportaria questionamentos, sentimentos de pena e até mesmo as palavras de conforto. De que tudo vai passar, de que sou maior que tudo isso, que não estou sozinho e que sou amado. Vocês estão vendo meus queridos eu sei disso tudo, não precisam se preocupar, eu só preciso de um tempo para me por de pé.

Enquanto comia minha pizza amanhecida, me lembrei de um local onde eu conseguiria atenção. Local esse já tão familiar, pois durante um bom tempo freqüentei chats de bate-papo e sempre conheci pessoas interessantes que acabaram saindo da telinha e hoje fazem parte da minha vida.

Pronto, tinha encontrado a solução para o meu problema de solidão.

Procurei por um chat de nome interessante e me lancei em busca de pessoas que também se encontravam sozinhas e que faziam da internet sua única ferramenta de distração.

Não tive sorte na primeira sala e na segunda nem uma boa tarde como resposta eu consegui. Resolvi mudar de tema, de sala e de tática. Não iria mais cumprimentá-los e esperar por resposta, iria sim me meter no assunto que estivesse em pauta e torcer para não ser tratado como um invasor.

Tive êxito na nova estratégia e em poucos minutos eu já sabia tudo sobre a vida da vizinha da tal “Kakau” que tinha ido para o hospital com suspeita da nova gripe. Eu sei que o assunto não era nada interessante, mas entre ele e o branco das paredes resolvi optar por saber mais a respeito da vida da “Kakau” e também do “Coração Partido” um jovem de 16 anos que se queixava por amar a namorada do seu irmão.

A falta de maturidade das conversas fez com que me aventurasse por outras salas até que encontrei um grupo de pessoas que buscavam conhecer sua cara metade. Era uma dessas salas onde pessoas solitárias buscam encontrar um novo amor.

Eu como não queria me expor e nem tão pouco lembrar dos meu problemas resolvi assumir o perfil de um jovem escritor de 30 anos que estava em busca de material para seu novo romance. Disse que não era um escritor renomado e que na verdade só tinha um livro publicado por uma editora que nem era tão grande. Em pouco tempo esse patinho feio de coração espremido passou a ser o centro das atenções da sala de bate papo.

As pessoas foram se animando e ouvi estórias de amores mal resolvidos, de pessoas desiludidas, de sonhadores em busca de alguém para amar, de sua cara metade e até de um viúvo que buscava sua terceira vitima já que tinha enterrado duas esposas.

As horas se passaram e decidi então tirar minha fantasia. Despedi-me dos colegas solitários deixando a capa e mascara dentro dos limites da web. Desliguei o note e novamente me entreguei a minha depressão.

Desejei ter o poder que só encontramos na web, o de brincar de Deus. Somos capazes de nos reinventar de mudar o que não gostamos e até de nos dar nova vida, nova aparência, sexo, endereço, idade...

É exatamente do que preciso, esquecer quem sou para me tornar um novo alguém.

Desfrutar de uma nova vida, uma nova família, uma nova historia.

Uma vida com um final feliz.


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