Após uma semana de intensa reflexão decidir retornar para São Paulo e também para parte da minha vida. Pensei em fazer isso em doses homeopáticas e retomando sem presa, aquilo que ainda penso valer a pena.
Dentre tantos conflitos que carrego a única certeza que tinha era o desejo de continuidade do meu curso de desenvolvimento mediúnico. Aproveitei a data, terça-feira dia de aula e por volta das 17:00 horas iniciei meu retorno.
Subi a serra do mar com muita calma, até mesmo parando no caminho para evitar chegar muito cedo
Moro com minha prima Carol e alem disso temos uma agência de eventos que funciona dentro de nossa casa ontem alem de nós dois trabalham também meu primo Dennys e a Laura uma amiga da família.
Não quero estar junto deles, mesmo sabendo serem eles os meus maiores apoiadores. Já passei por situações semelhantes e sei como seria constrangedor esse reencontro. Pensei em após o curso seguir para um flet e permanecer escondido, mas agora em minha cidade natal.
Fui o primeiro a chegar para o curso e aproveitando desci para nossa sala de aula para preparar o ambiente como fazemos toda semana. Liguei a caixa de som e ajustei o volume da musica ambiente, coloquei a água nos copinhos para serem fluidificados, posicionei as cadeiras e sentei no meu lugar buscando serenar meu coração para o melhor aproveitamento da aula.
Na hora marcada estavam todos já devidamente instalados e nosso dirigente fez então a prece de abertura. Ao termino da mensagem teve inicio o debate sobre o tema abordado na semana anterior, Evolução Espiritual. Nosso professor disse que devido ao curto período de aula, algumas perguntas ficaram em abertas e que para sanar todas as duvidas deveríamos continuar no mesmo tema. Eu como havia faltado na semana anterior, resolvi prestar mais atenção na tentativa de recuperar o que perdi.
Ele começou falando sobre sexualidade no mundo espiritual. Que lá não existe a questão do sexo e sim sexualidade, que os espíritos no decorrer de sua evolução podem nascer hora num corpo masculino e outra num corpo feminino. Que geralmente os espíritos podem optar pela escolha do seu sexo antes da encarnação, mas também existem casos onde o plano espiritual sentencia o individuo a nascer num corpo contrario a sua preferência. Seriam esses casos onde a entidade abusou do sexo oposto.
A explicação seguia normalmente até que uma colega pede um minuto para tirar uma duvida. Perguntou sobre tais casos onde a entidade é obrigada a encarnar num sexo contrario ao que era desejado, se essa entidade não poderia então se revoltar em terra e se tornar homossexual.
Nessa hora voltei toda minha atenção para o professor que começava a esclarecer a duvida dizendo que a homossexualidade poderia se manifestar de inúmeras causas inclusive dessa que ela acabara de perguntar. Que nunca ouve um depoimento preciso sobre essa tema e que o Espiritismo a contrario das demais religiões entendia a homossexualidade como algo já determinado no plano superior e não como um desvio de caráter como afirmam as demais doutrinas religiosas.
Gostei da explicação que acabara de receber e até pensei em fazer uma pergunta, mas temi manifestar grande interesse no tema e despertar a atenção dos demais colegas para mim, já que todos ali desconhecem minha opção sexual.
Nosso professor continuava com suas considerações sobre o tema quando meu amigo levantou a mão e pediu para dar um depoimento sobre algo que ele presenciara.
Disse ter uma amiga “sapatão” e que um dia conversando com a mesma ouviu dela uma revelação sobre seu namoro. Teria dito à moça que sempre que mantinha relações com sua parceira ela se sentia muito mal chegando até a passar mal fisicamente. Que ela amava sua companheira, mas não aceitava a relação das duas e que ele aceitava ainda menos.
Eu não podia acreditar no que acabara de ouvir. Meu melhor amigo no curso dando um depoimento carregado de preconceito. Pensei em rebater aquele pensamento de alguma forma, mas novamente me calei para não levantar suspeitas.
Para minha decepção outros colegas foram manifestando também suas impressões e logo a sala virou um campo de batalha. De um lado os que apoiavam, respeitavam e entendia a homossexualidade e do outro, os que condenavam e não entendiam como sendo algo vindo antes mesmo do individuo nascer.
Mesmo sabendo que não falavam diretamente de mim, fui me sentindo ofendido e bastante decepcionado. Pedi licença para me retirar da sala alegando que estava com dor de cabeça e levantei indo em direção a porta.
Nosso professor parece ter percebido meu desconforto, olhou para o relógio e pediu silêncio. Disse que iríamos começar a aula pratica um pouco mais cedo que o de costume e me pediu para esperar só uns minutos antes de ir embora. Mesmo contrariado resolvi aceitar e voltei para minha cadeira.
Ele fez o sinal e um colega apagou as luzes e todos fecharam os olhos e nos colocamos em posição de relaxamento. Nisso ele toca no meu ombro pedindo que eu fosse me sentar na cadeira que ele havia colocado no centro do circulo.
Assim que me sentei ele pediu para que todos dessem as mãos e se concentrassem
Senti o sangue gelar e passei a temer o resultado de tal exercício.
A primeira a se manifestar foi Dona Antônia que começou a chorar. Nosso professor foi até ela e perguntou o que ela sentia e ela relatou uma dor enorme. Uma dor não física, mas sim emocional. Nisso o Roberto do outro lado da sala também começou a chorar e logo após a Rita também se punha em prantos.
O professor começou então a direcionar os médiuns para que fossem em busca da causa e não no efeito e então eles começaram a expressar os sentimentos que há anos venho sentindo.
Dona Antonia começou a falar sobre uma grande briga, uma discussão que ocorrera já há alguns anos, mas que nunca fora solucionada. Que isso era uma enorme ferida que me corroia e que eu tinha que tentar superar. O Fábio começou a falar da solidão, que me via sozinho mesmo quando estava cercado por outras pessoas. O grupo de pouco mais de 15 pessoas começou a falar de minha vida e sentimentos com tamanha propriedade que parecia que eu antes de entrar na sala tinha sido submetido a um rigoroso questionário.
Acredito que tenha recebido apoio dos meus mentores e também do plano espiritual, pois não consigo entender como tive forças para suportar toda aquela invasão sem desmoronar diante deles. Sei que o único objetivo desse exercício era o de me ajudar, de tentar diminuir um pouco o peso que venho carregando em meus ombros. Entendo que meu professor por ter mais sensibilidade, percebeu o meu descontrole emocional e pediu ajuda do grupo para juntos colaborarem com meu restabelecimento.
Terminada nossa reunião agradeci aos colegas pelo apoio e sai em disparada para meu carro com medo de algum comentário ou pergunta sobre o que fora revelado. Sem muito pensar peguei novamente a estrada e voltei para Santos me refugiando novamente dentro de minha fortaleza da solidão.
Pretendo permanecer por aqui agora sem data para voltar.


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