quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Revelações

Logo após deixar a Gi em sua casa, liguei para meu primo Dennys avisando que eu passaria a noite em São Paulo e que assim que saísse do meu curso iria para minha casa onde também funciona nossa agência. Que eu precisava pegar algumas coisas e queria saber se ele aceitaria comer uma pizza comigo já que eu não o via há bastante tempo e estava com saudade.
Assim que sai do curso segui direto para a casa do Dennys e como o combinado dei um toque no seu celular evitando assim dar de cara com meus tios que com toda certeza não ficariam nada felizes em me ver bater em sua porta.
Assim que entrou no carro me deu um beijo no rosto e novamente me cumprimentou por meu aniversario. Disse que gostaria de ter estados ao meu lado, de comemorar como nos velhos tempos, mas como tenho passado esse tempo em Santos, a distancia dificultou seu comparecimento. Agradeci novamente seus votos de felicidade e então seguimos para minha casa.
Já em casa subimos para o meu quarto, pois eu queria pegar alguns livros, roupas e os esboços dos contos que escrevi a quatro mãos com o Ale. Desejava levar esse material para Santos e analisar com carinho e atenção. 
Foi ainda no meu quarto que o Dennys teve a idéia de acendermos a lareira, já que a noite estava fria e ele estava se sentindo meio nostálgico. Desejava relembrar dos finais de semana que vínhamos quase todos os netos dormir nessa casa que na época pertencia a minha avó. 
A lareira era acesa e nós deitávamos todos no tapete da sala, enquanto ela sentada em sua poltrona nos contava histórias de nossa família, de sua juventude, da chegada deles ao Brasil, de como conheceu meu avô e muitas outras.
Fiquei surpreso com a idéia do meu primo e sem suspeitar de nada concordei com sua sugestão. Pedi que ele se encarregasse disso, enquanto eu terminava de separar as coisas que levaria comigo para Santos.
Assim que desci encontrei a lareira acesa, a mesa de centro afastada e o Dennys deitado no chão apoiado em uma enorme almofada, da mesma forma como ficávamos quando crianças. Tinha preparado igualmente um espaço para mim também com uma almofada e já estava com a garrafa de vinho aberta e o folder da pizzaria na mão. Comentei que há tantos anos não fazíamos isso e que eu quase podia sentir a presença da vovó, e ele concordou dizendo que também só pensava nela e em seu sorriso.
Deitei ali ao lado de meu primo e sem muito rodeio perguntei como estavam as coisas na agência. Que eu sabia que os abandonará, mas que a cada dia eu me sentia mais distante dessa atividade. Ele me respondeu que a agência estava indo muito bem, que as meninas estavam com novos projetos e até me falou um pouco sobre eles. Percebi que meu primo se referia aos projetos sempre citando o que cada uma delas faria, mas não se incluiu neles em nenhum momento. Imaginei que ele também já não se encontrava mais dentro da agência, mas evitei comentar, pois até hoje não consegui resolver nem meu dilema de voltar ou não a fazer parte dessa empresa. Ouvi com atenção tudo o que me falava até que fomos interrompidos pela chegada de nossas pizzas.
Comemos sem pressa enquanto falamos da Carol nossa sócia e prima. Eu queria saber como ela estava com a situação da doença do tio Pedro e também como ele vinha reagindo ao tratamento. Como eu já sabia, a Carol tinha saído lá de casa para voltar para casa dos pais, queria estar ao lado da tia Jamile que passara a viver em função do tio Pedro. Esse por sua vez vinha lidando muito mal com o tratamento. O tumor dessa vez voltará de forma mais violenta e os primeiros medicamentos não fizeram efeito levando assim ele a pesadas sessões de químio e rádio terapia. Que passa alguns dias internado e outros de molho em casa sem poder por a cara para fora devido à baixa imunidade.
Comentei meio sem pensar que desejava fazer uma visita ao tio Pedro. Tentar levar um pouco de apoio, carinho, mas que tinha medo de sua reação. Não a de me maltratar já que isso era quase certo, mas dele entender vinha visita como uma despedida, um adeus a um moribundo. 
Com uma feição muito rígida o Dennys me perguntou para que tudo isso. Se eu não estava cansado de ser escorraçado por essa família, que ele no meu lugar abriria uma garrafa de champagne para comemorar não só a morte do tio Pedro, mas também a de seu pai já que os dois eram os maiores opositores de minha presença no seio dessa família. Sua reação não me surpreendeu, pois o Dennys sempre foi muito mais duro do que eu e chego até a acreditar que ele no meu lugar seria sim capaz de festejar a morte dessas e de outras pessoas de nossa família.
Tentei justificar meu pensamento de que talvez essa fosse a ultima vez que veria meu tio vivo, que pensava não só nele, mas em nossa tia e primos e principalmente na Carol que assim como ele Dennys eram as únicas pessoas que me aceitavam e foi então que ele me surpreendeu.
Interrompendo minha linha de raciocínio ele começa a bater palmas e fala:
Lindo, muito lindo, você perde seu tempo pensando neles, enquanto eles riem de você pelas costas, desejando que você os esqueça da mesma forma que eles já o esqueceram. 
Ainda no mesmo tom me perguntou como eu havia passado meu aniversario. Pego de surpresa por sua pergunta decidi me esquivar alegando que tinha comemorado ha data sozinho, mas feliz com um belo jantar num restaurante que gosto muito. Queria esconder a vergonha vivida em tal data.
O Dennys com o olhar bastante seco indagou se o tal jantar aconteceu antes ou depois de eu comer o bolo pullman e cair bêbado no sofá. Espantado com o que acabara de ouvir perguntei quem havia contado para ele sobre esses fatos e ele respondeu que eu mesmo através de meu Blog. Que no dia seguinte ao meu aniversario minha amiga Gi ligou na agência para falar com a Carol e como não a encontrou resolveu falar com ele mesmo. Disse que ele deveria me procurar, pois eu precisava de sua ajuda. Ele sem entender o porquê questionou o pedido e ela para dimensionar a gravidade do problema revelou a existência de meu Blog.
A partir desse momento o Dennys desembestou a falar. Primeiramente se referindo ao conteúdo dos meus textos e como isso o chocou. Que ele sabia sim que eu sempre sofri com esse isolamento que me foi imposto, mas nunca tinha visto isso pelo meu ponto de vista. Nunca tinha visto e nem sentido o quanto é grande esse sofrimento e principalmente o poder de destruição que isso me causa.
Falou sobre a morte do Ale e de como isso deve me machucar, já que não existe memória do fato. Da minha solidão e foi falando, falando... Eu ali a sua frente só a ouvir e a entender que ele com toda certeza devorara todo o conteúdo do meu Blog já que estava mencionando até o dia dos pais. De como eu fui isolado, indesejado e pior de tudo de como eu me senti diante disso tudo.
A revelação de que ele tomara conhecimento da existência de me Blog em nenhum momento me abalou e quanto eu estava prestes a encerrar o assunto o Dennys novamente me surpreende revelando não mais os meus, mas sim os seus segredos.
Contou-me que quando éramos crianças ele me odiava com todas as forças. Que no seu entendimento eu chegara para roubar o seu titulo de neto caçula, tomar a atenção e colo que recebia de todos. Que eu por ser um filho, um neto quase impossível de ser concebido devido aos problemas que minha mãe enfrentava na gestação passei a ser a criatura mais desejada por toda família e antes mesmo de meu nascimento ele já me odiava.
Justificou que graças à diferença de três anos que existe entre nós, nunca encontrou dificuldade em me bater ou se mostrar superior. Que eu o irritava só por existir e o que mais o revoltava é que mesmo sempre me hostilizando ele sabia que eu o adorava e queria de alguma forma sempre estar ao seu lado. Quanto mais eu o buscava, mais ele me hostilizava.
Quando jovens me invejava, pois eu era naturalmente belo, trabalhava como modelo e a cada dia fazia mais sucesso. Que ele para se sentir bonito se entregava a um rigoroso treino físico passando horas na academia para mostrar a todos que ele também era bonito, forte, malhado.
Invejava minha educação, meu porte, minha inteligência. Rasgava anúncios nos quais eu posava como modelo e praguejava por eu existir.
Anos mais tarde quando me assumi homossexual e decepcionei toda a família ele pode se sentir vingado já que o pavão caia em desgraça. Eu perdia minha família, minha referência, minha vontade de viver e ele ao contrario nunca se sentira tão vivo. Bebia da minha desgraça e desejava que ela fosse ainda maior.
Mas um dia atende seu celular e que do outro lado estava nossa prima Carol aos prantos, desesperada, pois tinha voltado para casa e me encontrado desacordado estirado na cama com um monte de frascos de remédios vazios. Que enquanto corria para o hospital para se encontrar com nossa prima tomou conhecimento de que a criatura que ele tanto odiara sofria tão intensamente chegando ao ponto até de tentar se matar. Que enquanto dirigia de sua casa até o hospital, chorava e rezada, pedindo a Deus uma nova oportunidade para nós dois.
Meu primo me contava tudo isso com o rosto lavado em lagrimas, pedindo-me perdão por tantas vezes ter desejado o meu mal. Que sempre que lembrava agradecia a Deus por hoje sermos grandes amigos e às vezes até confidentes. 
Pediu-me um abraço e com a cabeça apoiada em meu ombro chorou de soluçar. Eu como já era de se esperar me entrei também ao pranto e deixamos as lagrimas lavarem não as minhas magoas, mas sim as dele.

Eu sempre soube que a minha tentativa de suicídio as 18 anos de idade mexera com o Dennys de uma forma especial. Criou um laço verdadeiro entre nós, fez surgir um belo e verde campo onde antes habitava um estéril deserto. Viramos verdadeiramente primos, amigos e até mesmo irmãos. Mesmo ciente disso tudo, jamais pude imaginar que antes disso ele me odiasse tanto. Que me visse como um intruso em sua família, um rival.
Tal revelação fez surgir uma nova chama num peito sempre esperançoso. Quem sabe um dia mais alguém de minha família consiga compreender um pouco dessa criatura chamada Rodrigo.

Um comentário:

  1. Querido,como vc está? espero que bem,vc sumiu do twitter e do meu blog,fiquei preocupada.mas enfim espero que esteja td bem.tenha um lindo fds...desculpe as poucaslpalavras beijos....

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