Eis que chega Setembro.Mês que sempre me foi muito especial, não somente pela data de meu aniversário, mas por tudo que sempre representou em minha vida.
Nos últimos anos vivencio Setembro de forma mais intensa do que o restante do ano. É um período de reflexão onde tendo entender não só a mim, mas tudo que está a minha volta. Questiono meu lugar ao mundo, minhas ações e reações perante a tudo que a vida me oferece.
Percebo particularmente neste ano que meu Setembro teve início ainda no mês de Agosto. Que todo o processo de introspecção já vem sendo executado desde o dia dos pais e para minha tristeza, tenho que reconhecer que mesmo mergulhado em tantos pensamentos, não consegui avançar nem um passo em minha reestruturação. Ainda me sinto fragmentado, sem saber quem sou e qual o meu destino.
Quando me recordo dos eventos que vivenciei em Setembro penso que os outros meses serviram como sustentação, plano de fundo para algo maior.
Setembro é o mês de aniversario das duas pessoas que mais amei e que também me fizeram me sentir o mais amado (Deborah e Alexandre). Foi nesse mês que pensei ter perdido a Deborah para sempre, quando ela me revelou que ficaria noiva do seu então namorado. Nesse mesmo mês e ano desiludido pela perda da mulher que eu tanto amava e que até então só me via como um grande amigo, eu revolvi assumir para mim e para toda minha família a minha homossexualidade. Este foi também o primeiro ano que não tive uma grande festa de aniversário.
Para falar a verdade não ouve nenhum tipo de comemoração. Eu tinha saído de casa, estava sozinho, sem o apoio de ninguém de minha família. Estava tão perdido, magoado, tão humilhado que passei todo o dia chorando em uma pousada no Guarujá.
Aquele Setembro para sempre vai ficar gravado em minha história.
Foi a partir dessa data que tudo se transformou, que meu castelo de cartas ruiu e que pude conhecer a verdadeira face de minha família, ter contato com sentimentos baixos como preconceito, nojo, desprezo.
Também nesse mês e ano que tentei dar vida ao meu verdadeiro eu. Parei de enganar a todos e principalmente a mim mesmo. No meio de tantos escombros que se tornara minha vida, surgia um novo Rodrigo. Um rapaz com tantos sonhos, tantos planos e que acreditava que poderia ser feliz, sendo honesto com aqueles que amava. Um garoto que pensava ter que dividir com essas pessoas seus medos e incertezas para então sair em busca do seu verdadeiro eu..
O que a imaturidade não faz com a gente.
Revelando a minha verdade, descobri estar cercado por tantas mentiras. Buscando a realização de um sonho, fui tragado pelo mais sombrio dos pesadelos. Desejando encontrar a felicidade mergulhei em um oceano e desespero. Tentando me encontrar, me entender, me descobrir, acabei me destruindo, me anulando, me apagando...
Hoje cedo enquanto caminhava pela praia, me lembrei de uma carta escrita por meu pai. Quanto completei 15 anos ele muito emocionado me entregou uma carta dizendo que a tinha escrito logo após meu nascimento. Que aquele dia foi o mais difícil e lindo de sua vida, pois as previsões que recebiam da equipe de médicos eram por de mais desesperadoras.
Que devido a todos os problemas que minha mãe enfrentou durante a minha gestação era quase certo que eu não sobreviveria ao parto e que as complicações eram tamanhas que minha mãe também corria grave risco.
Ele me contava isso com o rosto lavado em lagrimas e segurando a tal carta que guardou por 15 anos para me entregar de acordo com a promessa que tinha feito. Eu nunca soube para qual Santo e o que fora prometido, mas a carta, essa sempre esteve comigo, mesmo nos momentos onde todas as ações por eles tomadas me faziam desacreditar no significado de cada palavra ali registrada num pedaço de papel. Por muitas vezes me agarrei a essa carta como sendo as únicas palavras de amor e carinho que restara de meus pais.
A carta é enorme e embora eu me recorde de quase todo seu conteúdo, vou citar apenas um trecho, aquele que se enquadra com o meu Setembro.
“Após um rigoroso inverno que se estendeu por anos e anos, um raio de sol iluminou a cinza e ressecada paisagem. Um campo de solo rico e prospero que devido às intempéries da mãe natureza se encontrava ressecado e coberto por uma vegetação pobre e rasteira pôde então se encher de esperança e desejar que a vida ali se fizesse presente.
Unidos pelo mais sublime amor, dois seres se deram as mãos e plantaram em tal terreno sua semente. Diariamente a acarinhavam, regavam com todo seu amor e esperança que dali surgisse o mais belo ser.
A batalha foi árdua, o rigor e mistérios da natureza pareciam instransponíveis, mas a cada nova provação o desejo e união daquelas duas pessoas se fortaleciam. O combate se estendeu por meses até que numa noite de 23 de Setembro, um desconhecido, vestido de branco vem ao encontro de uma família agoniada que esperava aos prantos notícias do que se passava a poucos metros dali. As palavras do tal jovem soavam com tamanha beleza que nem o mais talentoso artesão seria capaz de produzir um instrumento que emitisse um som mais harmonioso do que aquele que todos acabaram de ouvir.
No meio dos gritos de alegria, eu seu pai caia de joelhos no chão agradecendo a Deus pelo presente recebido. Junto com a chegada da Prima-Vera, Deus colocou em nosso colo o mais lindo botão de flor...
Mesmo me recordando de quase toda a carta, tentei ser o mais fiel e reproduzir com exatidão cada palavra por ele utilizada. Sei não estar idêntica, mas ficou o mais próximo que fui capaz de escrever.
Sempre me emociono quando me lembro dessa carta de meu pai. Pergunto-me o que teria mudado em sua cabeça. Se ele e minha mãe ainda se lembram-se da existência dessa carta e para eles o que teria acontecido com esse botão de flor quer fora assim tão desejado.
Sem a resposta para essa e tantas outras questões eu continuo a vagar pela cidade de Santos, vivenciando o meu Setembro, sem saber como isso tudo vai acabar e nem onde pode me levar.

Querido,eu espero sinceramente que o mês de seu aniversário seja um mês feliz para você,que você ache as respostas que procura e se não as achar,entenda que talvez elas não devam ser encontradas.não posso ter dimensão do seu sofrimento da sua magoa,mas entendo muito da sua dor.A familia nos parece sempre um abrigo,um porto seguro onde sempre estaremos a salvo,mas na maior parte das vezes não é assim que funciona,então a gente se pergunta o que fizemos de errado para nos desprezarem dessa forma?!
ResponderExcluirQuerido eu sei muito bem como é esperar carinho compreensão de vpessoas que tem o seu sangue e não ter nada além do vazio.quando conversarmos melhor você vai me entender.Eu entendo mais a sua dor do que você pode imaginar e por isso eu te digo,você vai superar e achar seus caminhos! tenha fé! um beijo grande!
Olá, Rodrigo.
ResponderExcluirVc não me conhece e nem eu te conheço. P/ dizer a verdade caí no seu blog por acaso, ou por obra do destino. Li seu texto, que a princípio me interessou pelo simples fato de ser o mês do seu aniversário, também faço aniversário agora, 11 de setembro, mas conforme fui avançando na leitura comecei a ver que vc passou por situações muito parecidas comigo.
A diferença é que eu nunca me assumi publicamente. As pessoas a minha volta, bem lá no fundo, sabem. Mas preferem fazer de conta que não vêem. Talvez seja melhor assim, talvez não...
O fato é que eu entendo sua dor, já passei por coisas parecidas e sempre que o cerco fechou minha situação era sempre a mesma: estava sozinho no mundo.
O que eu tenho a te dizer é: invista no seu autoconhecimento e procure evitar contar com a compreensão alheia, quase sempre eles nunca vão te entender... viva sua vida, seus sonhos, seus amores intensamente, porém com responsabilidade... porque a vida é muito curta para ficarmos marcando bobeira e perdendo tempo com autopiedade.