segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Bons Momentos

Há dias venho tentando colar os cacos para entender melhor à imagem que vejo diariamente refletida no espelho. Tenho que admitir que tal processo tem contribuído e muito para minha instabilidade emocional pois me obrigo a visitar o meu passado e reviver todo tipo de lembranças, sejam elas boas ou ruins.
Descortino fases da minha vida como infância, adolescência. Revivo épocas como colégio, faculdade, recordo de pessoas, fatos, lugares, enfim tento unir todos os fragmentos que determinaram quem sou, meu caráter, meus ideais.
Sei que sou filho, primo, amigo, visinho, homem, gay... Mas na verdade o que vem a ser tudo isso se não títulos, arquétipos que recebemos por viver em sociedade.
Pretendo descobrir quem é a pessoa que ostenta todos esses títulos, o que ela pensa, o que a faz sonhar. Quais são seus medos e desejos e principalmente descobrir o que a faria realmente feliz.
O silêncio proporcionado por esse isolamento tem me ajudado a entender várias questões que sempre evitei encarar. Medo, duvidas, falta de tempo, pressão, apoio e interferência de amigos, sempre me fizeram fechar os olhos ou ignorar muitas coisas que aconteciam ao meu redor. É mais fácil fingir esquecer, do que encarar. É cômodo atribuir a responsabilidade a outras pessoas e assim se isentar da culpa. Aparentemente dói menos fechar os olhos para o que está nítido em nossa frente.
Não estou me responsabilizando por tudo que vem ocorrendo em minha vida e nem isentando meus familiares. Só tento jogar um pouco mais de luz sobre esse terreno tão obscuro. Tento me ver como um observador e não mais como o personagem central. É impressionante como uma simples mudança no ângulo na lente te faz perceber as coisas com outra dimensão, te trazem um novo sentido para aquilo que antes parecia estático.
Sei dos riscos que corro com tal processo, como os de aumentar ou diminuir a relevância de um acontecimento ou também de absolver ou condenar a mim ou terceiros por fatos já ocorridos, mas sigo com cautela, pois não busco algozes, mas sim o entendimento.
Seguindo com esse resgate, me deparei com um fragmento que para mim é desconhecido. Por mais que tente não consigo superar os bloqueios impostos por minha mente em relação ao acidente que nos privou da convivência com o Ale.
Na semana passada busquei tão intensamente levar um pouco de luz sobre esse fato que decidi que voltaria a Tabatinga para quem sabe lá descortinar esse grande apagão.
No início temi não ser capaz e recorri a Gi pedindo que me fizesse companhia, mas devido o aniversario de sua irmã não pode me ajudar. Pensei em pedir socorro ao Chris, mas esse continua a me ignorar. E assim não tive outra saída a não ser seguir sozinho.
Sai de casa na sexta-feira pela manhã e assim que peguei a estrada me coloquei em alerta achando que ao passar pelo local do acidente todas as recordações voltariam a minha mente, mas me decepcionei em descobrir que o bloqueio foi tão grande que em duvida identifique uns quatro possíveis locais onde poderiam ter realmente ocorrido à batida. Baseado no que me foi relado pelos amigos que estavam presentes, tentei remontar as cenas, mas foram tantas incertezas que acabei chegando à pousada sem ter avançado um único passo.
Cheguei a Tabatinga por volta das 11 horas e com a vantagem de estar fora de temporada não tive nenhum problema em conseguir um quarto. Joguei as coisas dentro do armário e tomei uma ducha para tirar a poeira da estrada.
Sai para almoçar num restaurante próximo a pousada e enquanto comia recordei da ultima vez que estive ali com o Ale e nossos amigos. Foi em janeiro desse ano e estamos todos na casa da minha amiga Lú. Havíamos descido a serra pouco depois do réveillon e ficamos lá pouco mais de uma semana. Alem de nós dois estavam a Gi que na época estava solteira, o Carlos ex da Lú e mais dois primos dela. O Ale desceu na quarta-feira à noite e ficou conosco até o domingo, dia de nosso retorno e do acidente.
A principio pensei em afastar essas lembranças, mas então lembrei que esse fora motivo pelo qual retornei a Tabatinga e sem mais receios deixei me guiar pelas primeiras lembranças.
Após o almoço caminhei até a praia e fiquei ali sentado desenhando a paisagem em um pequeno bloco que sempre carrego comigo para sempre registrar em palavras ou desenhos os bons e maus momentos. As horas passaram rapidamente e logo tive que me recolher para evitar ser devorado pelos borrachudos. Tomei mais um banho e me deitei dessa vez dedicando meu tempo a leitura.
Não imaginei que eu estivesse tão cansado, mas fato é que acordei no sábado já próximo ao meio dia. Como estava morrendo de fome resolvi voltar ao restaurante e logo após peguei a trilha para a praia das tartarugas. É uma trilha curta e a única dificuldade foi desviar do lamaçal que se tornou o lugar após sucessivas chuvas. Não chega a ser um obstáculo, mas mesmo que o fosse, nada nem ninguém me impediria de rever o lugar onde nos amamos pela ultima vez.
Procurei pela mesma arvore onde em baixo me sentei colando minhas costas contra seu tronco e tendo as costas do Ale amparadas em meu peito. Em minha mente busquei pela sua voz e fui recordando os nossos sonhos, desejos, fantasias. Elenquei escrevendo na areia tudo aquilo que faríamos juntos esse ano. Nossa viagem, a possibilidade dele trocar o apartamento e vir morar em minha casa, o livro de crônicas que estávamos escrevendo juntos e também recordei do pedido de desquite que ele queria que eu pedisse da minha família, rs.
Ele tinha um jeito todo debochado de se referir a minha família. Não menosprezava meus sentimentos, mas me fazia entender e às vezes até a acreditar que quem mais perdia com esse distanciamento eram eles e não eu. Definitivamente ele sabia reverter minha tristeza, me fazer acreditar, desejar algo além daquilo tudo que me fora negado.
Nesse momento senti que as lagrimas corriam frouxo pelo meu rosto. Não era um pranto de dor, mas de uma saudade gostosa, até mesmo de uma certa alegria por ter um dia me sentido tão amado, desejado, especial. Por ter tido ao meu lado uma pessoa que se descobriu gay por minha causa, mas que tinha mais orgulho disso do que eu que já convivia com essa realidade a mais tempo que ele.
Como a noite já se aproximava, resolvi mergulhar no mar e voltei para a praia principal a nado, evitando ter que passar novamente pelo lamaçal. Ainda antes de voltar para a pousada, passei no mercadinho e comprei uma garrafa de vinho e uns petiscos para me distrair durante a noite.
Acordei bem cedo no domingo voltei à praia para mais um banho de mar. Aquelas águas cristalinas onde é possível enxergar todo o seu corpo mesmo em alto mar me causam uma fascinação que devo ter ficado ali por horas e horas.
Da praia segui para o restaurante e de lá marchei rumo à casa dos pais da Lú. Eu sabia que a casa estaria fechada e que não conseguiria entrar e nem era essa minha intenção. Eu desejava apenas olhar novamente para o local onde convivi com o Ale em seus últimos momentos. Relembrar de nos dois, das palavras, os carinhos.
Fechei os olhos e nos vi a todos fechando a casa e seguindo cada um para seu carro. Lú no carro do seu namorado, seus primos em outro, eu e a Gi no meu e o Ale que tinha descido no meio da semana estava sozinho em seu carro. Me vi segurando seu rosto em minhas mãos e dizendo que eu estaria logo atrás, que ele tomasse cuidado e que fosse para seu apartamento que assim que eu deixasse a Gi na casa dela, voltaria para junto dele. Despedi-me com um longo beijo e um tapa meio sacana em sua bunda. Entramos nos carros e pegamos a estrada. Recordo dele na minha frente guinado o pequeno grupo de carros, de brincarmos pelo espelho do carro e então tudo se apaga, se torna branco e sem sentido. É o momento onde ele bate o carro e eu o perco.
Revivi inúmeras vezes esses momentos em busca de um sinal, de algo que pudesse ter passado despercebido e que indicasse que eu não o veria nunca mais. Sabe aqueles sinais que vemos em livros, filmes, uma intuição, um gesto qualquer que indicasse perigo, alerta, mas acredito que isso não deva ter ocorrido.
Já cansado e bastante emocionado resolvi que era hora de voltar para casa. Retornei a pousada e no finalzinho da tarde e peguei a estrada em direção a Santos. Não sei se foi o cansaço ou a paz de espírito que consegui durante esses dias que esqueci completamente de na volta buscar pelo local do acidente. Só fui me dar conta disso agora enquanto escrevia esse texto.
Reconheço que não encontrei exatamente as lembranças que lá fui buscar, mas voltei com a bagagem repleta de bons momentos que ali vivi, me sentindo muito mais tranqüilo e com o coração mais sereno.

Um comentário:

  1. Passei, vi, li e entendi. É sempre bom fazer as pazes c/ o passado...

    Um grande e forte abraço, meu amigo.

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