Impelido por um sentimento que não pude mais sufocar, me entreguei cegamente a um combate que sinceramente não sei ser capaz de triunfar.
Desde a tarde de sábado que acordo e vou dormir pensando somente em uma coisa, ou melhor, em uma pessoa. Sou obrigado a reconhecer que aquela moça me tirou do eixo, me fazendo acordar desse mar de calmaria que venho habitando há alguns meses.
Passei quase uma semana tentando buscar lógica em um território que para mim no momento é totalmente desconhecido. Como obter uma resposta se ainda nem consegui formular as questões.
Cansado de tantas teorias resolvi desligar definitivamente o lado racional. Passei a ignorar toda e qualquer informação de perigo ou advertência. Decidi fechar os olhos para o que é certo e errado e iniciar então a minha versão da guerra santa. Ortodoxo contra Muçulmano. Damm x Damm.
Desvencilhei-me o mais rápido que pude dos compromissos que tinha aqui no escritório. Ainda enquanto trabalhava fui arquitetando o plano de ação que me levaria de volta à loja de Samira sem levantar suspeitas. Não poderia chegar lá com a maior cara de pau depois do meu já desastroso primeiro contato.
Por sorte não precisei de muito tempo para formular minha estratégia. Em poucos minutos estava eu dentro do carro, acompanhado da calça corsário que comprei na loja da Samira.
O receio de não encontrá-la era tão grande que fazia o coração quase sair pela boca.
Em poucos minutos estava eu diante de sua loja, pedindo novamente as bênçãos do Senhor. Allah Mabarake
E não é que ele me abençoou.
Assim que entrei já pude ver Samira perto ao balcão do caixa, ao lado de outra moça que logo reconhecei com a tal irmã já mencionada. Aproximei-me e novamente as saldei em Árabe.
Sabahel kheir, kifac.
Samira me apresentou como sendo o patrício simpático que estivera na loja no sábado. Esse comentário me fez ver que então minha presença mesmo que para mim desastrosa havia deixado uma marca já que Samira tinha comentado sobre mim com sua irmã Nadhia.
Nadhia também é uma mulher muito bonita, de traços mais fortes e voz firme e logo me perguntou o que me trazia de volta. Eu que já estava com meu discurso ensaiado desde que sai de casa, não me deixei abater pela fraqueza de Nadhia e respondi que a calça havia ficado um pouco apertada e eu gostaria de provar um numero maior. Mentira a calça estava perfeita.
Ela pediu para que uma atendente fosse buscar um numero maior e enquanto isso aproveitei para puxar assunto com as duas. Para minha surpresa, Nadhia se mostrou uma simpática tagarela que logo me entupiu de perguntas sobre minha família, trabalho e outras futilidades. Descobrimos até que poderíamos não ser totalmente estranhos, pois nossas famílias freqüentam alguns lugares em comum.
A atendente voltou com minha calça e eu para continuar com a encenação me dirigi ao provador. Fiquei um tempo parado e sem provar a nova calça, sai alegando que não tinha ficado bem, que estava muito larga. Pedi para ver novamente a anterior.
Enrolei mais alguns minutos e voltei para o caixa com cara de duvida, relatando o ocorrido e pedindo a opinião das belas jovens.
Fui aconselhado a manter a calça original já que segundo elas o jeans laceia com o uso. Mal sabe elas que o jeans estava perfeito e não desejo que laceie um só milímetro, rs.
Quando percebi que já chegava a hora de me despedir, resolvi dar a ultima cartada e contando com a simpatia e senso de humor da Nadhia, fiz o seguinte comentário.
- Sabe Nadhia, a Samira foi muito rude comigo no sábado passado. Eu a convidei para um lanche e ela não aceitou. Você não acha que ela me deve pelo menos um café.
Nadhia sorriu e sem pensar duas vezes respondeu que pegaria um café para mim, mas eu fui mais rápido e respondi que nós sendo árabes não poderíamos aceitar um café de garrafa térmica, e que eu fazia questão de levá-las até uma cafeteria próxima.
Percebi que ela se sentiu presa com a forma que coloquei meu pedido, mas justificou que não poderiam deixar a loja. Eu mais uma vez insisti e disse que as levaria então uma de cada vez para que a loja não ficasse abandonada na mão dos empregados.
Nadhia abriu mão e me liberou Samira para um rápido café.
O café seguiu tranqüilo, com conversa descontraída sem que eu desse bandeira e pusesse tudo a perder. A cada gesto, a cada palavra, meu fascínio por Samira só ia aumentando e envoltos numa atmosfera de total inocência retornamos para dentro da loja.
Despedi-me das irmãs dizendo que retornaria muitas outras vezes, não só pelos produtos, mas principalmente pela simpatia das proprietárias.
Desejei uma boa tarde e bom trabalho. Maçal kheir, Ia tikkel afie
Allamaac
Não sei qual será meu próximo passo, não posso retornar tão já a loja.
Sei que poderia usar o pretexto da compra de um presente, mas penso que tenho que conseguir algo maior, algo que me faça ir alem do balcão do caixa. Pensei em ficar amigo do tal noivo, pois esse sim não colocaria empecilhos na aproximação de um estranho. Talvez ele seja o elo fraco.
Bom, não sei onde isso vai dar e nem de que forma terminar, mas uma certeza eu tenho, essa história não acaba aqui...
Salam ua leikun.

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