Já reparou como podemos vivenciar sentimentos tão opostos num curto período de tempo. Que uma única pessoa, até mesmo um estranho é capaz de te elevar ao Olimpo e minutos depois lhe afundar na mais profunda escuridão do Tártaro.Como sair ileso desse conflito de emoções?
Ontem resolvi seqüestrar o Chris e mais um casal de amigos para juntos comermos uma pizza lá na Mooca. O programa perfeito para quem está afim de boa comida ao lado de grandes amigos e muita conversa sem sentido. Digo isso porque o Chris tem o dom de confundir a todos com suas conversas divertidas, mas quase sempre sem lógica, que ao termino te faz questionar se alguém nem que seja ele entendeu algo do que foi dito. Some isso algumas garrafas de vinho e terá o resultado.
Tudo estaria perfeito se eu não tivesse perdido a aposta idiota que fiz com o Chris que dessa vez o Guá não falaria de Dubai, destino esse de suas férias de final de ano.
Tah, eu sei que o Guá iria falar de Dubai já que isso virou uma obsessão, mas como eu queria provocar o Chris resolvi ser do contra e como paga tive que levá-lo hoje as compras no Brás.
Acordei hoje as oito, tomei uma ducha e segui para a casa do tosco do Chris que já estava na porta com a cara toda amassada parecendo que tinha dormido na máquina de lavar. Tentei provocá-lo, mas o rabugento me olhou com cara de poucos amigos que decidi ignorá-lo, aumentei o volume do rádio e segui para nosso destino.
Estacionei o carro na Rua Silva Teles e fomos descendo olhando todas as vitrines. Essa é uma das poucas regiões do bairro do Brás onde a concentração de povão é um pouco menor.
Sobe aqui, desce ali, vira a esquerda e depois a direta e em poucas horas estávamos os dois com as mãos cheias de sacolas. Para quem foi de acompanhante acabei me rendendo aos prazeres do capitalismo mais do que ele, rs.
Entramos em uma loja para ver umas malhas que o Chris gostou e de repente vejo umas vendedoras cochichando ao meu lado. Olhei para aquilo sem dar muita importância até que uma delas veio com o catalogo da loja na mão me pedindo para assinar. Quando olhei vi que era um catalogo de inverno que fiz o ano para a associação de comerciantes do Brás e já nem lembrava mais dessas fotos. Foi divertido ver o entusiasmo das jovens senhoras em ver esse modelo em desgraça ali ao alcance de suas mãos.
Voltamos a bater perna e dessa vez fui eu que arrastei o Chris para dentro de uma loja para comprar um jeans corsário que acabara de ver na vitrine. Estava ali na fila pronto para pagar quando o Chris vem e comenta comigo “olha que linda essa sua patrícia”, virei para a moça que estava no caixa e então vi a mais bela de todas as “Sabie”.
Devia ter por volta de 1,70 de altura, magra de pele clara, seus cabelos negros como a noite estava envoltos por um véu cor de vinho. Seus olhos de um castanho escuro eram ternos e perfeitos, sua pequena boca de lábios finos pintados delicadamente de um vermelho pálido harmonizava perfeitamente com seu tradicional nariz árabe bem fino e levemente arrebitado. Era uma verdadeira aparição que tinha diante de meus olhos.
Não respeitando os protocolos, fui até ela para tentar saber um pouco mais sobre aquela linda moça muçulmana. Na tentativa de diminuir o constrangimento em ser abordada por um estranho, me dirigi a ela em Árabe.
Marhaba, Sabahel kheir.
Essas simples frases fizeram com que sua atenção fosse toda voltada para mim e percebendo isso prossegui.
Kífac?
Ela com um discreto sorriso, talvez do meu sotaque horrível respondeu:
Nuchkor Allá, chucran.
Ainda dentro da língua Árabe perguntei seu nome e descobri ser Samira. Continuamos ainda dentro do mesmo idioma e ela demonstrou ser muito simpática. Descobri que ela é a proprietária da loja junto com sua irmã mais velha que tinha saído para almoçar.
Eu num ato impensado e de bastante atrevimento perguntei se poderia convidá-la para almoçar. Ela então se retraiu e disse que não poderia, pois estava à espera de uma pessoa.
Eu já sem jeito pelo pequeno fora, mas ainda impelido por aquele desejo que transbordava dentro de mim passei a falar em português e mudei completamente o discurso elogiando a sua loja e mercadorias. Ela aos poucos foi relaxando e logo senti que o mal estar começava a ser superado.
O Chris veio até mim tentando me apressar, mas logo entendeu o que estava se passando e saiu tentando disfarçar alegando que iria provar outra calça.
Quando senti que tinha novamente conquistado a sua confiança, comecei a falar de como eu admirava a coragem das jovens muçulmanas que trabalhavam fora de casa sem perder a tradição. O papo começava a fluir para onde eu desejava, quando vejo um enorme sorriso abrir em seu rosto e então ela diz: Veja Rodrigo, esse é meu noivo Jorge.
Penso que se o tal Jorge tivesse me surpreendido com uma adaga seu golpe não seria mais mortal do que o som daquelas palavras que acabara de ouvir. Virei para a porta e vi um jovem se aproximando também com aquele feliz sorriso no rosto. Nunca o tinha visto e já o odiava com todas as minhas forças.
Samira então me apresentou como um patrício e então novamente a conversa voltou para o idioma Árabe, mas dessa vez um pouco mais arrastada pois todo meu esforço em impressionar a bela jovem já não fazia mais sentido.
Tentado não ser rude abreviei a conversa e conclui o pagamento. Despedi-me de Samira sentindo uma estranha sensação de derrota. Sei que não tivemos mais do que alguns minutos e mesmo assim a decepção por perder alguém quem nunca tive foi terrível.
Pedi ao Chris para voltarmos para casa e encerramos com uma baixa nosso passeio de compras na região do Brás.
Confesso que ainda não me restabeleci dessa paixão instantânea. Não sei se foi tombado pela beleza daquele jovem ou se foi o sangue Árabe falando mais forte. Agora estou aqui a correr os dedos pelo teclado, mas os pensamentos permanecem lá juntos a Samira.
Bause.

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